Reunidos, moradores de rua pedem fim do faz de conta
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terça-feira, 02 de setembro de 1997
Célia Baroni Londrina 
A população de rua de Londrina não quer ser confundida com mendigos. Afirma que, apesar de não ter residência fixa, a maioria dos que vivem nas ruas garantem seu sustento trabalhando. São catadores de papel, de lixo, bóias-fria ou fazem artesanato.
Mais que um prato de comida e doações de roupas usadas, querem que a comunidade dedique parte de seu tempo para ouvi-los e compreender o que os levou a viver nas ruas. Acreditam que esta compreensão pode ajudar a evitar que a população de rua continue aumentando e talvez possibilite o retorno ao convívio social (família e amigos) de muitos que hoje estão nas ruas.
Reivindicam o fim do faz de conta. Afirmando que a sociedade faz de conta que ajuda doando alimento e roupa; os órgãos públicos fazem de conta que estão trabalhando oferecendo serviços que não atendem às necessidades da população de rua. E a população de rua faz de conta que está tudo bem. Estes foram os principais pontos levantados durante o 1º Encontro de População de Rua de Londrina, realizado no barracão do projeto Noite Fria, na vila Casoni, no domingo à tarde.
Promovido pela Secretaria Municipal de Ação Social, o encontro teve como principal objetivo definir metas para uma política de atendimento às pessoas que vivem nas ruas da Cidade. Qualquer trabalho, para ter sucesso, precisa partir das dificuldades que eles enfrentam, suas expectativas e sugestões, defende a coordenadora do Programa de Enfrentamento à Pobreza, Neusa Harumi Tiba. Cerca de 30 pessoas participaram da reunião.
De acordo com Tiba, cerca de 300 pessoas vivem nas ruas da cidade. Metade não tem mais vínculos familiares e estão morando nas ruas e a outra metade vai e volta. Do encontro surgiu a proposta de um trabalho específico voltado para atender os que moram nas ruas, priorizando informações sobre saúde e profissionalização. Harumi Tiba explica que a Ação Social vai continuar prestando atendimento a todos, mas vai cobrar que as famílias assumam as suas responsabilidades.
A maioria deles acabou na rua porque não teve o apoio necessário dentro de casa para superar seus problemas. E a Ação Social não pode assumir sozinha a sua recuperação, isentando a família da responsabilidade que lhe cabe, frisa a coordenadora.
O barracão que atendeu o projeto Noite Fria, iniciado em 3 de julho e encerrado no último domingo, poderá não ser repetido em 98. Durante o encontro, os usuários do serviço reivindicaram um atendimento permanente. Sugeriram uma chácara onde, além de alimento e pousada, pudessem ter acesso a cursos de formação e pudessem trabalhar.
Nos três meses de trabalho o projeto Noite Fria prestou atendimento a 342 pessoas. No barracão, os usuários tinham lugar para dormir, recebiam alimento (café da manhã e sopa à noite) e acompanhamento. Do total, 10 foram reencaminhados para as suas famílias.


