Retratos da espinha dorsal do Norte do Paraná
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terça-feira, 30 de abril de 2013
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local
Se toda cidade possui uma origem, para se chegar a ela é necessário abrir um caminho, uma estrada pela qual se inicia o processo de ocupação. No caso da região de Londrina, a Companhia de Terras Norte do Paraná abriu no final dos anos 20 e início dos anos 30 do século passado a Estrada Mestra - uma espécie de "espinha dorsal" pela qual as cidades da região foram formadas. Um pouco dessa história pode ser vista na exposição "Remanescentes da estrada mestra da companhia de terras Norte do Paraná- paisagens", com 61 registros da histórica paisagem.
A mostra, que segue até o dia 21 de maio, foi organizada pelo Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da Universidade Estadual de Londrina. "Essas fotografias serviram para ligar os documentos históricos com a paisagem atual, até para estabelecer a relação com outros documentos históricos", destacou o diretor do CDPH, Marco Antônio Neves Soares. Segundo ele, a exposição, que fica no centro de documentação, mostra as transformações na estrada. "O Norte do Paraná possui uma dinâmica diferente de outras cidades do interior do Brasil. Aqui tudo muda muito rápido", destacou.
Segundo ele, a estrada mestra possibilitou o trabalho de implantação dos trilhos ferroviários que ajudaram a impulsionar a economia da região. Ele explicou que a via foi aberta em cima de espigões que dividiam as bacias hidrográficas e a cada 15 km eram estabelecidos os núcleos urbanos. Ela corta áreas dos municípios de Londrina, Cambé e Rolândia.
Em Cambé, algumas das características da antiga via ainda estão presentes. No município a estrada recebeu o nome de Rua Belo Horizonte. Com um olhar mais atento é possível identificar na arquitetura de algumas casas de madeira e nas construções em alvenaria, seguindo o estilo art déco, o início dessa saga que formou uma das regiões mais ricas do Paraná.
Sebastião Solina, de 75 anos, viu muitas das transformações na estrada mestra. Ele contou que ainda era criança quando percorria a via, ainda sem pavimento asfáltico, para ir às casas de secos e molhados que existiam por lá. "Eu morava no sítio e vínhamos de jipe ou a cavalo para comprar as mercadorias." Relembrou também que o local onde hoje há uma revenda de cimento durante muito tempo pertenceu a uma indústria de açúcar. "Eu trabalhei muitos anos nessa indústria", ressaltou. Hoje Solina trabalha atrás de um balcão de bar e recorda com saudades dessa época de ouro da estrada.
Quem também se lembra desse período áureo é o agricultor Arlindo Simoni, de 69 anos. Ele citou com certa nostalgia a Casa Paranaense, onde hoje existe um salão comercial para alugar. "Naquela época a italianada se juntava para ficar bebendo vinho e comer salame", destacou. "Aqui só tinha estrada de terra e não havia calçadas. Os paralelepípedos só foram implantados na década de 50, por obra de José dos Santos Rocha", relembrou.
Um pouco mais à frente, próximo ao Estádio Municipal José Garbelini, está um trecho que os cambeenses chamam de estrada velha. Trata-se da continuação da Estrada Mestra que é uma verdadeira volta ao passado, já que há uma transição do asfalto para o paralelepípedo, desse para o moledo e, enfim, termina em uma estrada de terra.
Em uma das propriedades ao lado é possível ver terreiros para a secagem do café que ainda estão na ativa. O lavrador Maurício Calois, de 70 anos, chegou a trabalhar nessa propriedade e relembrou que o proprietário era uma pessoa boa, mas se provocado, ficava furioso. "Ele ficava sentado picando fumo e ao lado dele mantinha uma carabina que podia ser acionada quando necessário", relembrou. Da estrada, guarda poucas lembranças do tempo de garoto, mas até hoje se recorda de todo o processo de secagem do café. "Dava gosto de ver."