Resto de demolição se transforma em casa nova na favela
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de janeiro de 1997
Carina Paccola 
Mário CésarO engenheiro Maurício Costa (foto) orienta favelados na demolição de imóveis. Em troca, eles recebem o material que irá substituir os barracos de lona por casas de alvenariaMoradores de favelas em Londrina estão trocando seus barracos por casas construídas com material reaproveitado de imóveis demolidos. A experiência começou no jardim Marabá (zona leste). Nesta semana, o vendedor de alho Nelson Peres dos Santos, a esposa e três crianças vão se mudar para a casa nova, que vai substituir o barraco que ocuparam por quatro anos. Durante a construção do imóvel, eles ficaram abrigados na casa da sogra de Nelson, ali mesmo no Marabá.
A nova casa tem três quartos, sala, cozinha e banheiro. O piso é de mosaico de mármore e granito. Bem diferente da antiga moradia. Essa mudança só é possível graças ao Projeto Onde Moras, que nasceu há cerca de três meses com um grupo de pessoas ligadas à Igreja Católica.
A novidade do Projeto é que o material usado para a construção das casas é retirado na demolição de outros imóveis. Quem faz o trabalho são os próprios moradores da favela. O Projeto tem uma relação das 20 famílias mais necessitadas do Marabá. Cada uma envia um representante que vai integrar a equipe técnica. Com orientação do engenheiro civil Maurício Tadeu Alves Costa, metade da equipe faz a demolição dos imóveis. A outra parte trabalha na construção das casas. Um sorteio define em que ordem cada família receberá o imóvel.
O importante é que todos se empenham em trabalhar, mesmo que seja na moradia do vizinho, porque sabem que logo chegará a vez da sua casa, fala o engenheiro. Segundo ele, o tempo da construção é em torno de oito a dez dias. Até o final de janeiro, três casas ficarão prontas nesse sistema de construção do Marabá. A do vendedor de alho será a primeira.
O Projeto Onde Moras surgiu de uma conversa entre o engenheiro Costa e o padre Roque, da Paróquia da Catedral. Costa tem experiência em construção de moradias populares em Ribeirão Preto (SP). Ele está em Londrina há seis meses e teve contato com a situação das favelas através de padre Roque. Pensando na precariedade das residências das favelas, Costa teve a idéia de reaproveitar material de construção quando viu um sobrado de 500 m2 ser demolido a um custo de R$ 2.500,00, incluindo mão-de-obra e transporte do entulho.
Um total de 95%
do material que
viraria entulho
é aproveitado
A partir daí, começou o trabalho. Em contato com irmãs da Congregação de Santana, que já atuam como evangelizadoras no Jardim Marabá, aquele bairro foi o escolhido. As irmãs já tinham um levantamento das famílias mais carentes. Queremos atingir o mais miserável dos pobres, fala o engenheiro. Costa e as irmãs se reúnem todas as semanas com as 20 famílias numa praça do Jardim Marabá para determinar tarefas e discutir problemas que surgem no trabalho. Tudo é feito em comunidade. O dono do imóvel em construção dedica cinco dias para sua casa e oferece dois dias por semana para as obras das outras famílias.
A equipe já demoliu três casas de 60 m2 cada, no centro da Cidade. A demolição consumiu dez dias de trabalho dos moradores. Eles recebem orientação técnica e trabalham com material de segurança, como luvas e capacete. O grupo ficou sabendo que esses imóveis seriam demolidos pela Prefeitura. Agora, eles querem manter contato permanente com a Prefeitura para saber de outros projetos de demolição. Para demolir um imóvel, é preciso obter alvará do poder público. Com essa informação, entraremos em contato com os proprietários e vamos oferecer nosso serviço, explica Costa. Segundo ele, a construção de uma casa também leva dez dias.
Com o trabalho do grupo, o proprietário do imóvel não precisa pagar para ter a casa demolida em troca da cessão do material. Em cada demolição, conseguimos aproveitamento de 95% do material, que viraria entulho, diz o engenheiro Costa. Pelas suas contas, uma casa demolida corresponde a uma casa construída. São aproveitados tijolos, telhas, vidros e madeira. São materiais antigos, bem resistentes. Muitos donos de barracões e casarões não mexem nos imóveis porque custa caro demolir. O destino do material que seria o lixo acaba sendo a favela. A grande dificuldade do grupo hoje é o transporte do material. Se algum empresário emprestasse um caminhão uma vez por semana seria ótimo.
Vildete Vieira está na relação das 20 famílias mais necessitadas do Marabá. Ela não tem pressa de ser sorteada porque sabe que sua vez vai chegar. Vildete mora num barraco com três filhos de 5, 8 e 11 anos. Estou há quatro anos aqui e estou vendo que essas novas casas estão ficando boas. Logo vou ter uma.
Mário CésarBeneficiado Izidoro limpa os tijolos que usará para fazer sua casa: Nunca teria condições de construirO pedreiro José Manoel da Silva conta que só com o Projeto Onde Moras está sendo possível concluir a casa que começou a construir há quatro anos no Marabá. Ele mora com a mulher, cinco filhos e um irmão. Primeiro, a família morava num barraco. Depois, resolvi montar uma casa de madeira.
Para começar a erguer sua casa de tijolos, Silva ia buscar material no lixão. Cada ano eu fazia um pedacinho. Mas acho que sem o projeto eu não ia terminar tão cedo.
A família de Antônio Donizete Izidoro também está sendo beneficiada pelo projeto Onde Moras. Izidoro e mais oito pessoas moram num barraco, com chão de terra, há cinco anos. Todos estão envolvidos na construção da casa de 48 m2, num terreno de 160 m2.
Izidoro é lavrador desempregado e ganha entre R$ 5 e R$ 8 por dia como guardador de carros. Com o meu trabalho, eu nunca teria condições de construir uma casa como essa, explica, enquanto tira o reboque de uns tijolos, apenas com uma das mãos. A outra foi ferida carregando material de construção. Ele não reclama. As mulheres da família e as crianças ajudam o serviço lavando telhas que irão cobrir a casa. A esposa de Izidoro, Luzia, diz que está muito alegre. Agradeço a Deus por essa casa.


