Imagem ilustrativa da imagem Restaurando emoções
| Foto: Celso Pacheco
"Se uma bicicleta entra hoje na bicicletaria, fica pronta só daqui a cinco meses. É um trabalho minucioso", afirma Djalma Mendes



Rolândia - Djalma Garcia Mendes, de Rolândia (Região Metropolitana de Londrina), restaura bicicletas desde a década de 1960 e a fama da excelência de seu trabalho ultrapassou as divisas do Paraná. Ele é requisitado para atender pessoas de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mais do que trazer de volta a originalidade desses veículos de duas rodas, Mendes ajuda a restaurar emoções. Considerado o meio de transporte mais utilizado no mundo, a bicicleta tem um espaço na memória afetiva das pessoas, talvez por ser um um veículo que acompanha a infância e a adolescência da maioria delas. Há também aqueles que querem recuperar bicicletas para usar como peça decorativa ou mesmo como relíquia.
Mendes, de 75 anos, nasceu em Santo Anastácio (SP) e se mudou aos nove anos para Primeiro de Maio. Foi com essa idade que ele viu uma Monark 51 vermelha, quase vinho. "Era de um primo meu. Ela me fascinou. Meu primo me levava na garupeira e desde então alimentei o sonho de ter a minha própria bicicleta", relata.

Mas esse sonho demorou a ser concretizado. Seu pai, um lavrador que trabalhava em plantações de café, tinha medo que ele se machucasse e o proibiu de ter uma.
Mendes ficou dez anos alimentando esse desejo de ter uma bicicleta própria. "Eu só fui comprar a minha primeira bicicleta, uma Monark 54, quando já estava adulto, aos 19 anos", revela. "Meu pai só mudou de ideia depois que viu que não tinha problema, aí ele gostou também", relembra. Ele contou que a sua primeira bicicleta foi montada e desmontada várias vezes. A primeira restauração foi nela.

Mendes relata que nesse intervalo de dez anos, ficava "paquerando" as bicicletas nas lojas. "As marcas que estavam em evidência eram as Phillips, Raleigh, Monark e Prosdócimo", recorda.
Ele aponta que a parte mais difícil em uma restauração é preparar a bicicleta, já que muitas chegam bastante enferrujadas e com a pintura original difícil de ser identificada. "Eu peço para uma outra pessoa jatear com areia para poder começar a aplicar a base, depois vem o fundo para poder começar a pintura", descreve.

Segundo o restaurador, as partes que que estragam mais são os para-lamas, o bagageiro e os aros. "Têm aros e para-lamas que não tem recuperação e às vezes é difícil de achar as peças. Quanto mais difícil de encontrá-las, mais caro fica. Mas, geralmente, são os próprios clientes que já trazem as peças", expõe, ressaltando que sempre deixa claro para o cliente se vale ou não a pena fazer a restauração.

"O aro original Prosdócimo, por exemplo, já não é fabricado há muito tempo. Para restaurar eu preciso encontrar a peça em estoques antigos de lojas, mas esse garimpo de peças não é fácil. Se uma bicicleta entra hoje na bicicletaria, fica pronta só daqui a cinco meses. É um trabalho minucioso, bastante detalhado", enaltece, revelando não ter ideia de quantas unidades ele já restaurou ao longo dessas décadas.



PRIMEIRO CLIENTE
Questionado sobre o primeiro cliente que atendeu em sua primeira bicicletaria na década de 1960, Mendes aponta para o carpinteiro aposentado João Fonseca, que estava na loja durante a entrevista à FOLHA. "Eu resolvi montar a loja em São Martinho (distrito de Rolândia) e, quando abri a porta, ele foi o primeiro a entrar na loja", relembra. Depois, ele se mudou para a área urbana de Rolândia e há 25 anos a Bicicletaria São José está no mesmo endereço, na Avenida Aílton Rodrigues Alves, 807.

Mendes conta que já atendeu várias gerações de clientes. "Tem alguns que atendi quando crianças e hoje estão de cabelos brancos. Atendi seus filhos, seus netos... Alguns já foram embora da cidade", aponta.

Uma das bicicletas cuja restauração foi recém-concluída é uma NSU alemã, com campainha, buzina, bomba de encher pneus, entre outros detalhes. A restauração foi tão boa que a bicicleta aparenta ter recém-saído da fábrica.

No entanto, como diz o ditado "em casa de ferreiro o espeto é de pau", com Mendes não é diferente. Responsável por restaurar várias bicicletas mensalmente, ele guarda carinhosamente uma que ainda não recebeu a sua atenção. Trata-se de uma Erlan 52, a sua segunda bicicleta. "Eu tinha 23 anos na época em que a adquiri. Era nessa bicicleta que eu carregava minha esposa e meu filho, quando ele tinha 2 anos. Fiquei 3 anos com ela, mas depois vendi e me arrependi. Após 40 anos tentando readquiri-la, finalmente consegui. Comprei, mas até hoje não restaurei", explica.

A bicicleta está há 12 anos esperando pela restauração, mas a prioridade dele sempre foi reformar os veículos de seus clientes. "Mas espero fazer isso até o fim deste ano. Quando ela for restaurada, vai ficar uma beleza", promete.

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