Curitiba

Albari RosaSuely Deschermayer restaura ‘‘Paraíso dos Contemplativos’’, de 1761Passar seis meses debruçado sobre um livro, enfrentando manchas de café e buracos nas páginas, provocados por cupins e traças, não é trabalho para qualquer um. No atelier Arte e Restauro de Curitiba, a restauradora Suely Deschermayer, com 14 anos de experiência, mostra um livro que está em fase final de restauração.
A obra ‘‘Paraíso dos Contemplativos’’, de Bartholom de Salúcio, lançada em 1761, chegou completamente destruída - páginas rasgadas ou corroídas por cupins, sem cola ou costura na lombada. O trabalho começa com o registro documental e fotográfico do livro, para que a restauração respeite os princípios originais da obra. Em seguida, é feita a desmontagem das páginas.
O tratamento é feito folha por folha, primeiro com a limpeza mecânica (com bisturi e pó de borracha) e a análise do pH (ácido ou alcalino). Depois, o restaurador define o melhor processo de limpeza das fibras do papel, optando por banhos aquosos ou químicos, de acordo com o tipo do papel e dos danos sofridos.
‘‘Cada livro deve ser analisado como se fosse um paciente - não há receita que sirva para mais de uma obra’’, observa Suely. Para preencher buracos feitos por insetos, é utilizada uma polpa de papel com a coloração mais adequada. A secagem pode ser feita em prensa ou ao ar livre.
A recuperação de letras e palavras apagadas ou corroídas também é realizada, mas somente quando há certeza do conteúdo do texto original. ‘‘É preciso ter conhecimentos de biologia, química e física para dominar a estrutura do papel e identificar os agentes de deterioração’’, explica a restauradora.
Bibliotecas - ‘‘Há um mercado emergente para conservadores e restauradores, já que temos poucos profissionais competentes e muitos arquivos, bibliotecas e museus’’, observa Suely Deschermayer, diretora do Atelier Arte e Restauro de Curitiba. Segundo ela, o preço de uma restauração pode variar de R$ 50,00 a R$ 5.000,00, conforme a dificuldade e o tempo de trabalho.
Além da restauração, saber conservar obras é outro ramo de atividade para os profissionais do setor. ‘‘Muitos livros não precisariam ser restaurados se houvesse uma conservação preventiva’’, comenta Suely.
Em bibliotecas, por exemplo, o ambiente deve estar sempre arejado, de preferência com telas nas janelas - para evitar a entrada de mosquitos e outros insetos. Os livros não podem ficar muito apertados nas prateleiras e devem ser limpos pelo menos duas vezes por ano.
Com o auxílio de uma trincha (pincel largo), luvas e máscaras contra a poeira, a limpeza deve ser feita livro por livro, página por página. O uso de durex ou fitas adesivas é proibido para encapar livros ou colar documentos. O material indicado para encapar é um filme de poliéster (que apenas envolve o livro, com dobraduras); para pequenos reparos ou remendos, é utilizado papel japonês e cola à base de água.

mockup