'Ressocialização é algo palpável'
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Aline Vilalva <br> Reportagem Local 
Uma maneira diferente de ajudar o preso a ressocializar-se tem surtido resultados bastante positivos em Loanda (noroeste). Desde que o projeto ''Grão de Mostarda'' - que oferece oportunidades de trabalho aos detentos e vários tipos de assistência - foi implantado naquela comarca, no início do ano passado, o índice de reincidência criminal que chega a 85% no Paraná está em 15% naquele município.
A proposta, idealizada pela juíza de Direito Isabele Papafanurakis Ferreira Noronha e lançada em janeiro de 2010 em Nova Londrina (noroeste) consiste na tentativa de ressocializar os detentos que estão presos nas delegacias de polícia das comarcas onde ela atua.
O Grão de Mostarda desenvolve cinco vertentes oferecendo assistências jurídica e ao primeiro emprego, incremento das atividades artesanais dentro da delegacia, trabalho de confecção de vassouras e evangelismo. ''São várias atividades que buscam implementar a lei de execução penal, que é linda no papel e contém um rol de direitos visando a ressocialização, mas que geralmente não acontecem na prática'', afirma a magistrada. ''A gente tem que ter a preocupação de encarcerar e punir aquele que errou, mas tabém de devolver à sociedade um ser humano melhor e não uma escória, um resto, um bicho que entra ruim e sai pior'', defende.
Por meio da assistência jurídica, advogados vão à delegacia e fazem atendimentos gratuitos, orientam sobre a situação processual e fazem pedidos para concessão de benefícios como liberdade provisória e progressão de regime, por exemplo. Em suas visitas, a cada dois meses, a juíza analisa o pedido diretamente com o preso e, se ele tiver direito, o benefício é concedido imediatamente.
Os presos também recebem cuidados de uma equipe médica da prefeitura, que faz consultas iniciais e, em casos mais graves, são encaminhados para tratamento e cirurgia. Além disso, são disponibilizadas assistências psicológica e odontológica. As famílias dos detentos também recebem visitas domicialires de psicólogos e assistentes sociais.
O incentivo ao artesanato é outro diferencial do projeto. Dentro da delegacia os presos fazem atividades manuais com tricô e crochê. Também transformam garrafas pet em fios que serão industrializados e utilizados como cerdas de vassoura. Há uma empresa parceira que compra o material transformado pelos detentos.
De acordo com a juíza, a fabricação das vassouras mobiliza toda a sociedade loandense, pois as escolas do município fazem gincana com as crianças para arrecadação de garrafas pet. A vencedora, que junta a maior quantidade, vai até o fórum da comarca, passa um dia lá e conhece a juíza. Mensalmente são arrecadadas de 6 mil e 7 mil garrafas.
Além dessas assistências, também é feito o evangelismo carcerário. Para os presos que demonstram vontade de mudar de vida, o projeto oferece apoio ao primeiro emprego. ''Quando recebe algum benefício, ele já sai com uma carta de alvará em uma mão e uma de emprego na outra, escrita por mim'', diz a juíza, completando que ela mesma bate na porta das empresas parceiras e pede a oportunidade.
Segundo Isabele, há vários exemplos de pessoas que foram reinseridas na sociedade desde que o Grão de Mostarda foi iniciado, há quase três anos, que não voltaram mais para o crime e estão trabalhando. ''A ressocialização é algo palpável, é possível. Basta a gente querer, mobilizar a sociedade e não se omitir'', garante.
''É fácil e cômodo deixar o preso como um lixo social e abandoná-lo. Mas fazendo isso, não estamos pensando no futuro. Se deixarmos de tratar essa população, teremos uma sociedade cada vez mais violenta, porque, fatalmente, um dia eles sairão da cadeia e voltarão a cometer crimes.''
A juíza completa que delegacia não é o local adequado para cumprimento de pena. ''É para preso provisório até o julgamento, mas, infelizmente, temos pessoas condenadas a até 20 anos que estão cumprindo a pena inteira fechadas numa delegacia.''
O projeto foi apresentado por Isabele na semana passada durante o Simpósio ''Por Extenso 2012'', realizado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).


