‘‘As crianças estão desmotivadas para aprender. E a culpa é da escola, que não as estimula, não leva em conta os interesses da criança. A escola deveria tratar de responder os questionamentos que elas trazem e, aos poucos, elevá-las para problemas mais complexos, mostrando que o conhecimento científico é o caminho para as respostas’’. A afirmação do professor-doutor Juan Delval, catedrático de Psicologia Evolutiva da Universidade Autónoma de Madri – onde ensina a psicologia do desenvolvimento da criança e do adolescente –, resume as maiores dificuldades da educação, hoje, no mundo.
Delval, autor de vários livros sobre o desenvolvimento do pensamento infantil e psicologia do aprendizado, esteve em Londrina, semana passada, a convite de um grupo de estudos do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O espanhol, uma das maiores autoridades mundiais em educação infantil, veio ao Brasil participar do congresso Educar 2000, que aconteceu em São Paulo.
Para Delval, que foi aluno de Jean Piaget no Instituto de Ciências da Educação em Genebra, a realidade da escola pública brasileira é a mesma que se encontra em vários países, principalmente os do Terceiro Mundo. Segundo ele, a escola pública reflete diretamente a realidade social onde está. ‘‘O problema é que a escola não pode esperar pela mudança da sociedade e ela não vai mudar a sociedade do jeito que está. Temos que fazer as duas coisas, juntas, dentro da realidade que os professores encontram hoje’’, afirmou.
Delval vê a escola como uma comunidade onde, segundo ele, vários fatores podem contribuir para o melhor ou pior resultado: as condições materiais que oferece, assim como os problemas sociais que a criança vive e até a situação salarial e capacitação do professor. ‘‘Porém, mesmo que as condições sejam as piores possíveis, embora isso dificulte, ainda assim é possível fazer um trabalho criativo’’, afirmou. Segundo ele, tudo vai depender, principalmente, da vontade do professor. ‘‘Mais do que de políticas educacionais, o aperfeiçoamento dos professores vai depender principalmente deles’’, disse.
Para o professor-doutor, no Brasil existem ótimos programas de educação básica que poderiam estar sendo aplicados em municípios de todo País. ‘‘Existe um, desenvolvido na Universidade de Campinas, que está sendo aplicado em várias cidades do interior daquele Estado, com ótimos resultados. Só que é preciso vontade política do município porque são caros, requerem um intenso treinamento e capacitação profissional dos professores’’, explicou.
Segundo Delval, as trocas nos programas oficiais (como a Lei de Diretrizes e Bases do Ministério de Educação) poderiam ser um marco para a reestruturação do ensino. ‘‘Mas não adianta apenas a lei sem dar condições de ser cumprida. Acaba ficando bonito por fora mas sem conteúdo. Se não trabalhar o professor, dar condições para que ele aplique as novas diretrizes, vai ficar só no papel. Eu me lembro bem quando mudou os conceitos da matemática moderna no mundo inteiro. O problema foi que ninguém se preocupou em ver se os professores entenderam aquilo. O que aconteceu? Os professores tiveram que decorar uma coisa que não entenderam e davam aulas assim, despejando o que apenas decoraram. Como, então, os alunos iam entender?’’, questionou.
Para ele, como a criança aprende é que deve determinar como o professor vai ensinar. ‘‘Se só mudar os objetivos e não mudar nada o quadro em relação com a formação, a escola vai apenas continuar a responder a perguntas que a criança não se fez e que não vai usar na vida’’. Na opinião de Delval, é importante primeiro criar a vontade de questionar, partindo de interesses da própria criança. ‘‘Ela chega na escola interessada em guerras, em árvores, em vôos dos pássaros. o professor não aproveita isto. Ele deveria ser mais receptivo ao interesses das crianças para promover estas trocas de informação e não só sobre o conteúdo científico, mas também sobre moral e valores sociais’’, apontou.
Segundo Delval, porém, estimular a criatividade não é deixar que as crianças conduzam a aula. ‘‘É fazer junto com ela, orientando, conduzindo, ter sempre em mente o objetivo maior’’, explicou. Interação seria, para ele, a palavra-chave. ‘‘A criança não aprende só com o professor mas também com o colegas, em casa. E isto precisa ser aproveitado’’, afirmou. Para ele, dar as respostas prontas, seguindo o texto do livro, sem dar possibilidade de contestação, dificulta o aprendizado. ‘‘Aí se estabelece dois momentos distintos na mente da criança. Ela acaba separando escola da vida diária. Não consegue integrar e se questiona: ah, vou usar isto para quê?’’ apontou.

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