Há uma luz no fim do túnel para portadores de transtornos mentais que estão abandonados em albergues de Londrina. Até o início de novembro, devem começar a funcionar as duas primeiras ''residências terapêuticas'' do município, destinadas a ressocializar e devolver a autonomia a pessoas que há anos vem dependendo de instituições.
A informação foi dada ontem pela coordenadora do Programa Municipal de Saúde Mental, Miriam Soares, durante o ''Seminário Macro-Regional Construindo a Rede de Saúde Mental'', que reuniu autoridades governamentais, prestadores e usuários dos serviços públicos. Eventos como esse estão sendo realizados em todo o Estado com o objetivo de discutir diretrizes para a humanização do tratamento.
''As residências terapêuticas são casas para pessoas que perderam seus vínculos familiares ou que têm vínculos muito frágeis. Elas funcionam como uma república de estudantes, com um máximo de sete pessoas e uma equipe de retaguarda'', esclarece Miriam. Os recursos para a implementação de duas dessas residências já foram liberados pelo Ministério da Saúde e, obrigatoriamente, a prefeitura de Londrina tem 90 dias para colocá-las em funcionamento.
De acordo com a coordenadora, o público-alvo do projeto são pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, que possuem um histórico de várias internações. No caso de indivíduos que mantêm um certo grau de autonomia, capazes de preparar a própria comida, por exemplo, o acompanhamento na casa é esporádico, feito por uma equipe de supervisão. Já aqueles que são muito comprometidos em termos de autonomia contam com uma equipe de suporte para ajudá-los desde a hora do banho até a medicação.
Os primeiros moradores das residências terapêuticas de Londrina sairão da Casa do Bom Samaritano, na Vila Marízia (Área Central). O albergue concentra um grande número de pessoas que, além de não terem moradia e vínculos familiares, possuem algum transtorno mental. ''Elas foram abandonadas e o albergue as acolheu, mas essas pessoas podem recuperar a convivência social'', sustenta Miriam. Uma avaliação clínica, psicológica e social feita com 90 pacientes de Londrina mostrou que metade deles têm perfil para morar nas residências terapêuticas. ''Temos muito chão pela frente até resolver o problema dessas pessoas'', constatou.
A terapia doméstica faz parte de um conjunto de serviços extra-hospitalares que o Estado está incentivando, seguindo diretrizes federais. Desde que foi criada a Lei nº 10.216, de 2001, o governo vem tentando colocar em prática a Reforma Psiquiátrica, com a desativação de leitos hospitalares psiquiátricos e a implementação de programas mais humanos de tratamento.
''Se o pessoal tem como única alternativa a internação hospitalar, ele acaba dependente e isso compromete sua inserção familiar, social e, consequentemente, sua recuperação'', diz o diretor de sistemas de saúde da Secretaria de Estado de Saúde, Gilberto Martin, que participou do evento de ontem. ''Temos que tirar o carimbo de 'doente mental' da testa desses pacientes'', conclui.

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