Imagine fazer um trabalho escolar e ser chamado somente depois de 19 anos para recebê-lo de volta no colégio. Essa história é verídica e aconteceu em Londrina, no Colégio Estadual Nossa Senhora de Lourdes, que fica no Jardim Brasília (zona leste). O mais curioso é que nada foi programado. Também não se trata de nenhum desleixo da diretoria do colégio. Tudo aconteceu, na verdade, bem por acaso. Os trabalhos, um retrato de vida com fotos marcantes das trajetórias de cada um, foram solicitados por uma professora de Português, em 1997, que, não se sabe o porquê, acabou não os devolvendo aos alunos.
Eles ficaram guardados por anos em uma caixa até serem descobertos pela então diretora, Tânia Cristina Firmiano, que avisou a professora de História, Eliane dos Santos Malheiros. Foi ela quem teve a ideia de refazer os trabalhos com as cinco turmas do sexto ano (equivalente à 5ª série daquela época) e promover o encontro de gerações para a troca de experiências e, claro, fazer a devolução do material aos alunos de 1997. Da turma de 39 estudantes, oito foram localizados e cinco deles compareceram ao evento ontem para receber os trabalhos de volta.
Hoje com 29 anos, o empresário Gérson da Silva jamais imaginou que seria protagonista dessa história. "Nem esperava. Quando o esposo da professora chegou no meu trabalho, achei que era brincadeira. Nem do trabalho eu lembrava e a curiosidade maior é essa, por isso estou aqui hoje", contou.
Um vídeo dos trabalhos antigos foi produzido e transmitido às duas gerações, que lotaram uma das salas do colégio. Uma tarde que ficará guardada na memória do agora professor de Filosofia, Adriano Junior da Silva, de 30 anos. "Foi emocionante, espetacular. Jamais imaginei que isso aconteceria um dia. No momento que recebi a carta, já comecei a reviver, me recordei de tudo que vivenciei e como isso influencia no nosso modo de viver", citou.
"Por mais que o tempo passe, mas as nossas raízes, aquilo que é importante para nós, permanecem. Um trabalho de 19 anos atrás já dizia muito sobre mim. As dedicatórias que faço são praticamente as mesmas que fiz no meu TCC, em outros trabalhos que fiz", continua o professor.
Autora da ideia, Eliane acredita que o encontro foi além do resgate das memórias. "A minha intenção é que eles percebam o quanto a história é dinâmica, é algo muito presente na nossa vida. Por mais que eles tenham relatado a história de vida dele 19 anos atrás em um caderno, eles podem se reconhecer também. Os alunos de agora se identificaram com muitas coisas, e foi muito interessante pela riqueza de memória. Foi emocionante", comentou a professora.
Aluna do sexto ano, Vanessa Cristina, de 12 anos, chegou ao colégio este ano e garante que o encontro lhe renderá uma lição importante para a vida. "É importante valorizar a história que estamos escrevendo. Meu futuro depende de mim e eu quero o melhor. Eles estudaram aqui e se tornaram boas pessoas, profissionais, exemplos que podemos seguir", destacou a estudante.
Os trabalhos dos alunos de 2016 também estavam expostos. Para realçar a parte histórica, Eliane pediu a cada um que colocasse como capa do seu livro um tecido que marcou a vida de cada um. Eles serão devolvidos a seus respectivos autores ainda nesta semana. Mas se dependesse do Rafael Machado, de 10 anos, a história seria diferente. "Seria legal receber depois de tanto tempo. Gostei da ideia", indicou o garoto.
"Esse momento vai trazer a importância do que cada um deles está vivendo hoje. Nós passamos por aqui há 19 anos e escrevemos a nossa história. Fiz faculdade, hoje tenho dois filhos, graças ao que aprendi aqui. E assim eles terão a oportunidade de fazer a deles também, de se tornarem pessoas até melhores que nós", falou o ex-aluno e agora empresário Gérson da Silva.

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