Ensinar jovens a assumir responsabilidades em uma sociedade que não assume qualquer responsabilidade sobre eles. Basicamente, esse é o papel da Guarda Mirim, entidade que atende jovens provenientes de famílias de baixa renda em Londrina, oferecendo cursos, oficinas e alimentação.
Na semana passada, alunos da Guarda Mirim de Londrina foram parar na delegacia por terem soltado uma bomba dentro do ônibus que os transportava. A polícia não conseguiu identificar o autor do ocorrido mas uma coisa é certa: a grande maioria dos mais de 50 jovens ali era inocente. Na mesma semana, a instituição formou duas turmas em diferentes cursos. Mas isso não evitou que a entidade, que atua há 42 anos em Londrina, saísse do episódio com a imagem desgastada.
A Guarda Mirim atende a 346 alunos com idades entre 14 e 17 anos, divididos em dois turnos. Suas famílias têm renda per capita igual ou inferior a meio salário mínimo, e alguns chegam à instituição encaminhados pela promotoria ou conselho tutelar. Na instituição, esses jovens participam de diversas oficinas, como a de circo, karatê, capoeira, maquete, artes, confecção de instrumentos, Role Playing Games (RPG) e hip hop, que está entre as mais procuradas, juntamente com a fanfarra, que é requisitada para fazer apresentações diversas.
Além disso, são realizados cursos como o de auxiliar de confeitaria (patrocinado pela construtora A. Yoshii), o de auxiliar técnico em administração com ênfase na indústria (em parceria com o Senac), auxiliar administrativo e auxiliar técnico em nutrição, este em parceria com a empresa Apetit e o Instituto Catuaí de Ensino Superior (Ices).
Vânia Tovo Oliveira, coordenadora do projeto na Apetit, destaca o ótimo rendimento dos alunos no curso de auxiliar técnico em nutrição, e afirma que não houve nenhum problema de comportamento. ''Falta oferecer objetivos a esses jovens. Se você dá uma oportunidade, eles respondem positivamente'', afirma, lembrando que, da turma de 25 alunos que se formou há pouco mais de uma semana, um já foi contratado e outro está em processo de seleção.
Na Guarda, cada aluno escolhe o curso que vai fazer, e os melhores são encaminhados para as empresas que lhes destinam vagas. Atualmente, cerca de 50 alunos estão trabalhando em diversas empresas, por meio do programa Menor Aprendiz. ''Nós ensinamos que os cursos são uma forma de eles conseguirem recursos para aprender cada vez mais, que esse não deve ser o objetivo final deles'', explica a professora Eliana Morinaka, diretora de patrimônio da instituição.
Porém, mesmo os que não conseguem emprego ou que apresentam mais resistência para serem disciplinados aprendem, na instituição, a ter mais dignidade. E isso se dá através de avanços em pequenos detalhes do cotidiano. ''Quando chegam, muitos comem de colher e resistem a usar garfo e faca. Também rejeitam guardanapos. Mas, algum tempo depois, eles se adaptam tanto que avisam quando falta faca ou guardanapo'', exemplifica a professora. Essa mudança acaba se refletindo nos lares desses jovens. ''Muitas mães vêm aqui dizer como o filho mudou a rotina e a realidade da casa, implementando essas pequenas coisas que aprenderam'', conta.
Com o trabalho na entidade, a educadora verificou que tem pouca fundamentação o senso comum de que uma das maiores causas para o problema seria uma família desestruturada e distante da educação dos filhos. ''A participação dos pais em encontros e reuniões que promovemos é muito grande. Eles estão preocupados em acompanhar o desempenho dos filhos'', observa.

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