Reserva indígena ganha escola estadual no Norte
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terça-feira, 17 de março de 2009
Mariana Guerin<br> Equipe da Folha 
Londrina - Na reserva kaingang do Apucaraninha, em Tamarana (Norte), toda decisão é coletiva: os índios se reúnem em roda, cada um expõe seu argumento e o grupo aponta em conjunto o que é melhor para a tribo. No início do mês, a coordenadora de educação indígena do Núcleo Regional de Educação (NRE), Nilza Maria Rodrigues, apresentou à comunidade o novo diretor da Escola Estadual Indígena João Kavagtãn, recém-estadualizada. E para decidir se aceitariam ou não um não índio comandando o colégio, o ritual kaingang mais uma vez foi proclamado.
Segundo Nilza, a escola da Reserva Apucaraninha foi a última do Paraná a a ser estadualizada. Isso porque os moradores não aceitavam a presença de não índios no colégio. Construída no final dos anos 1980 pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a instituição perdeu verbas quando o controle das escolas indígenas passou para as mãos do governo estadual. "Na época, eles não aceitaram que o Estado atuasse na comunidade, então a Prefeitura de Londrina acabou mantendo a escola."
A situação mudou há dois anos, quando Nilza assumiu a coordenadoria da educação indígena no NRE. De origem guarani, ela foi melhor aceita pelos kaingang e passou a negociar com o cacique a estadualização, concluída em parceria com a prefeitura londrinense este ano. O ensino indígena, a partir de agora, será bilíngue.
Antes, explica a coordenadora, os alunos falavam a língua indígena no pré e nos dois primeiros anos do ensino básico. Depois de mais um ano de transição, os professores passavam a trabalhar apenas o português dentro da sala de aula, na terceira e quarta séries. As crianças perdiam totalmente o contato com o kaingang. Com a estadualização, os alunos serão alfabetizados tanto na língua mãe como no português.
"Isso facilita para a criança, que só ouve kaingang em casa, mas precisa aprender o português para se comunicar fora da reserva, quando for comercializar o artesanato", diz o professor kaingang Claudio Galdino, garantindo que o uso conjunto dos dois idiomas não dificultará a transmissão do conteúdo aos alunos durante as aulas.
Conforme ele, a escola tem 12 professores indígenas e apenas uma não indígena, que trabalha e vive na comunidade há anos e já foi aceita pela tribo. Somente uma professora tem formação universitária, em Pedagogia; dois acabaram de entrar nas faculdades de Pedagogia e Educação Física, enquanto os demais têm apenas o ensino fundamental e estão em processo de formação no curso de magistério oferecido pelo Estado.
Contratações
"Antes do governo assumir, a Funai contratava os professores indígenas e muitos tinham estudado apenas até a quarta série. Com a estadualização, estes professores estão sendo capacitados pelo programa de magistrado integrado" informa Nilza. Outras vantagens da estadualização para os alunos serão as aulas de educação física e de artes e a modernização da infraestrutura da escola, que ganhou pintura, quadra, televisão e laboratório de informática.


