Representantes da saúde visitam creche
Walter Ogama
De Londrina
O assessor da Organização Mundial de Saúde (OMS), Oswaldo Ruiz, examina a boca do menino Deivid, beneficiário do programa Adotei Um sorriso, que assegura o tratamento dentário de crianças carentes e dá assistência até os 18 anos de idade
O menino Deivid Willian Urech, de uma turma de pré-escola da Creche Imaculada Conceição, no Jardim União da Vitória 1 (zona sul de Londrina), sorria, mas parece que tinha vergonha de sorrir. Apesar de criança, Deivid levava a mão à boca para esconder os dentes e reprimia a gargalhada comum nos meninos de sua idade - cerca de seis anos. O menino mantinha o sorriso trancafiado atrás do desconforto de ter os seus pequenos dentes destruídos pelas cáries.
Na tarde de quinta-feira Deivid e seus coleguinhas de turma e de toda a creche receberam o assessor de saúde oral da Organização Mundial de Saúde (OMS) Oswaldo Ruiz, e a representante de Cuba Margarita Lopez no 1º Congresso Mundial de Odontologia, que termina hoje no Complexo Marista, em Londrina. Deivid sorriu para os visitantes e não escondeu a boca. Nem precisava.
Beneficiário do projeto Adotei um sorriso, da Fundação Abrinq, Deivid tem hoje os dentes tratados. Ele pode se considerar um privilegiado no meio de uma multidão de meninos carentes que não contam com a ajuda de um anjo da guarda dentista. O projeto da Fundação Abrinq, cuja coordenadora regional em Londrina é a dentista Cristiana Castello Branco Nascimento, que na quinta-feira, a convite da Folha, acompanhou Ruiz e Margarita na visita à creche, funciona assim: o profissional voluntário adota o tratamento dentário de uma criança carente e a assiste até os 18 anos de idade.
O projeto Adotei um sorriso é um movimento voluntário da classe odontológica com o objetivo de proporcionar saúde bucal à crianças e adolescentes de famílias de baixa renda, informa a coordenadora. Ela adotou Deivid e libertou o sorriso do menino. Implantado no País em 1997, o projeto só chegou em Londrina no primeiro semestre deste ano. A Creche Imaculada Conceição é a única da cidade a tê-lo. A instituição atende atualmente cerca de 150 crianças, mas apenas 35 delas já tiveram os seus tratamentos dentários adotados. Mais de 100 ainda dependem de um anjo da guarda dentista.
Mas Deivid sorriu quinta-feira e até mostrou os dentes para o assessor da OMS e a representante de Cuba. O encontro das duas personalidades internacionais com as crianças da creche do União da Vitória - no mesmo dia Ruiz e Margarita já haviam visitado a Unidade Básica de Saúde do Conjunto Parigot de Souza (edição de ontem, página 3 do caderno Folha Cidades - proporcionou momentos de descontração.
Margarita cantou, fez caretas, sentou no chão para brincar com os pequenos. Ruiz debruçou sobre as mesinhas de pernas curtas, modelou massas e esforçou no portunhol para que o seu castelhano fosse entendido pelas crianças. Minutos antes, ambos haviam passado por ruas estreitas do União da Vitória, onde viram pela janela do carro gente simples, alguns com os dentes adequadamente tratados graças a alguns programas públicos que permitem o mínimo necessário em termos de saúde bucal. Outros desdentados.
Ruiz colheu informações sobre o projeto da Fundação Abrinq, que ele pretende apresentar para a Organização Mundial de Saúde. Margarita não se conteve: na despedida, em conversa com a coordenadora da creche Dulce Lopes da Cruz, se deixou chorar. Explicou, entre lágrimas, que era emoção. Por perceber numa comunidade de Londrina a realidade que ela enfrenta diariamente em seu trabalho em Cuba: gente carente, gente que se dedica aos carentes, gente que enfrenta a barra para buscar um futuro menos desdentado.





