O projeto de construção de hidrelétricas na bacia do Rio Tibagi, que nasce no município de Palmeira (40 km ao sul de Ponta Grossa), nos Campos Gerais, e desemboca no Rio Paranapanema, no Estado de São Paulo, está mudando a vida dos índios que vivem na região. Desde o ano passado eles vêm participando de estudos e reuniões para debater a viabilidade dos empreendimentos. São os índios, de acordo com a Constituição Federal, que definirão se as hidrelétricas serão ou não implantadas. De acordo com o artigo 231, parágrafo 3º, eles devem ser ouvidos quando existe a idéia de exploração dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, nas áreas indígenas.
A Copel é a empresa responsável pelos projetos de construção das hidrelétricas. A empresa havia recebido da Eletrobrás a incumbência de fazer inventários de todos os rios do Estado para localizar os que possuem potencial energético. A empresa constatou que o Rio Tibagi, rico em corredeiras, poderia abrigar sete projetos: as usinas de Jataizinho, Cebolão, São Jerônimo, Mauá, Telêmaco Borba, Tibagi e Santa Branca. Destas, apenas as quatro primeiras apresentaram atratividade e estão com seus Estudos de Impactos Ambientais (EIA-Rimas) sendo avaliados pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Além de terem o licenciamento aprovado, os projetos dependem da opinião dos índios que vivem nas áreas instaladas ao longo do Tibagi. O Congresso Nacional também deve opinar. Milton Ferreira, coordenador de Impactos Ambientais da Copel, explica que a implantação da hidrelétrica de São Jerônimo alagaria as terras indígenas de Queimadas, Mocóca e Apucaraninha. Já a hidrelétrica de Cebolão atingiria indiretamente as áreas da Barão de Antonina e São Jerônimo. Ao todo, elas abrigam 2.100 índios - caingangues, guaranis e xetás. A Copel prefere não falar sobre a área total que pode ser alagada, mas o laudo antropológico feito nas terras mostra que cerca de 350 alqueires podem ser inundados.
O presidente do Conselho Indígena do Norte do Paraná, o caingangue Lourival Ren Vaj de Oliveira, discorda. ‘‘Esse levantamento foi feito de avião, o que não dá números certos. Achamos que vai atingir muito mais, cerca de 1.200 alqueires’’, diz. Oliveira conta que os índios estão participando de reuniões para saber sobre o projeto. Eles ainda não decidiram a resposta que darão, mas acreditam que ficam sem opção no processo. ‘‘Vamos opinar, mas mesmo que a gente fale que não, com certeza as usinas serão construídas’’, lamenta.
É por isso que os índios, segundo Oliveira, já estão tomando algumas decisões. Eles não pretendem aceitar as benfeitorias (leia na pagina 2) que serão oferecidas pela empresa que vencer o processo licitatório e ficar responsável pela implantação dos projetos, caso sejam liberados. Com pensamento capitalista, o presidente do conselho explica que os índios querem dinheiro, e muito. Segundo ele, os equipamentos oferecidos podem se tornar obsoletos ao longo dos anos, enquanto que, com o dinheiro, os índios poderão comprar o que precisam, na medida que as necessidades vão surgindo.

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