Centenas de pequenos e médios produtores foram obrigados a deixar áreas às margens dos Rios Paranapanema e Tibagi, na década de 70, com a formação da Represa Capivara. Há quem conseguiu comprar outras áreas e continua a trabalhar na agricultura. Porém, nem todos tiveram a mesma sorte.
Cosmo Cassiano Ribeiro, 62 anos, chegou ao município de Sertaneja abrindo picadas na mata junto com o pai. Ele perdeu somente 1,5 alqueire do sítio de sete alqueires, localizado nas margens do Paranapanema. A área alagada, no entanto, era a mais nobre, onde Cosmo mantinha o gado leiteiro. ‘‘Eu vivia só do campo. Fui obrigado a vender meu gado e a me mudar para a cidade, pois não tinha onde criar os animais’’, comenta.
Com a indenização que recebeu da Cesp, conseguiu comprar um terreno de 400 metros quadrados no centro da cidade. ‘‘E completei com a venda do gado, senão não teria onde morar’’, afirma. Aos poucos conseguiu construir uma casa simples, de madeira. ‘‘A promessa era de melhorar a situação para a gente. Mas tudo ficou pior’’, conta.
Ele garante que é uma das pessoas afetadas pela crise. Por orientação de um amigo, diz ter ficado ‘‘correndo atrás’’ da Cesp para ter uma indenização um pouco acima da prevista para a região. ‘‘Mas tive que viajar muito para isso. Neste tempo, acompanhei muitos vizinhos que foram para situação pior. Muitos deixaram de ser pequenos agricultores para virar bóias-frias’’, comenta. O sítio ele ainda mantém, mas não trabalha mais na lavoura. Ele engrossa a renda mensal arrendando as terras.
Muitos amigos e vizinhos abandonaram a região. Outros ainda sobrevivem no município, como a família Carolino. O pioneiro Joaquim Carolino, pai de Madalena Carolino, 52 anos, tinha oito alqueires de terras. A área era dividida com o marido de Madalena, Lourival Ferreira dos Santos, 47 anos, que trabalhou parte de sua vida naquela área, e outros filhos. Eles mantinham lavoura de subsistência, criação de galinhas e porcos e, às vezes, prestavam serviços para sítios vizinhos.
‘‘A nossa vida era boa, não passávamos necessidades. A gente plantava mandioca, arroz, tinha frutas e verduras. Dava para garantir o sustento e ainda vender parte na cidade’’, relembra Madalena. Ela diz que sete pessoas moravam no pequeno sítio. Com o alagamento de quase toda a propriedade, a família foi obrigada a se mudar para a cidade e procurar trabalho de bóia-fria. Morando em casa de madeira, comprada com o dinheiro da indenização, Madalena e Lourival hoje sobrevivem com a ajuda da assistência social da prefeitura, que repassa cestas básicas.
Sofrendo de diabetes e com a visão prejudicada, Lourival está há cerca de um ano sem conseguir trabalhar. Madalena, nas poucas vezes em que pode deixar de cuidar do marido, vai para a lavoura. ‘‘Meu pai quase morreu quando largou o campo. Ele ficou desgostoso da vida, revoltado mesmo. O que ganhou da Cesp só deu para comprar esta casa’’, salienta. Segundo o prefeito Renato Tavares, na época as terras valiam em torno de US$ 10 mil no mercado, mas a família Carolino recebeu em média 10%.
Na época do represamento, o casal quase morreu afogado. Eles acreditavam que o nível do rio subiria devagar e poderiam colher as lavouras tranquilamente e depois se mudar para a cidade. ‘‘Fomos pegos de surpresa, com as águas entrando nas nossas casas. O antigo dono da casa que compramos ainda não tinha se mudado e fomos obrigados a morar um dia com eles’’, conta Madalena.
Hoje, não esperam mais pouco da vida. Tentam, a todo custo, conseguir uma aposentadoria de Lourival, por invalidez - ocasionada pelo diabetes -, para manter as necessidades básicas dos filhos.

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