Cerca de 80 famílias abandonaram ontem pela manhã o acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Fazenda Mitacoré, em São Miguel do Iguaçu (45 quilômetros de Foz do Iguaçu), nas proximidades da BR-277. As famílias que estão sendo chamadas de dissidentes decidiram sair do local por causa de desentendimentos com a coordenação regional do movimento. Os sem-terra montaram novo acampamento a cerca de três quilômetros. Apenas 20 famílias permanecem nas proximidades da BR-277.
As famílias dissidentes discordam da maneira como a coordenação regional do MST vem conduzindo os recursos financeiros provenientes da colheita das lavoras plantadas na Fazenda Mitacoré. Segundo elas, os líderes do acampamento não prestam contas do emprego do dinheiro obtido com a colheita. Já a coordenação regional, desmente a versão das famílias dissidentes e alega que presta conta de todos os gastos. A coordenação do MST, afirma que as famílias saíram do local porque querem a divisão individual de terras, e não aceitam a divisão coletiva adotada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Um dos coordenadores regionais do MST, Altair Simionato, disse que as famílias dissidentes são ‘‘problemáticas’’ e que não há nada de errado com a maneira de administrar o dinheiro do grupo. ‘‘Essas famílias não entendem que o movimento contraiu dívidas para que pudesse plantar e teve que saldar essas dívidas. Não podemos dar o calote em nossos credores’’, alegou.
Simionato também afirmou que acha injusta as acusações porque os dissidentes irão prejudicar muitas famílias acampadas. Ele não descartou a possibilidade de aceitar novamente no acampamento as famílias dissidentes. ‘‘Quem quiser se reintegrar conosco pode fazer isso a qualquer momento. Mas garanto que o MST vai tomar providências contra as famílias que não voltarem. Quem não serve para acatar o regimento interno do movimento não deveria nem ter vindo para cᒒ, advertiu.
O sem-terra Cilo Coradini, que faz parte das famílias dissidentes, justifica que a decisão de sair do acomapamento original não significa rompimento com o MST. ‘‘Apenas não concordamos com a coordenação regional. Não estamos acusando a coordenação de desvio de dinheiro, mas não sabemos de que forma o nosso dinheiro é usado. Em benefício do acampamento temos certeza que não 钒, afirmou.
Cada família acampada recebe mensalmente R$ 14,00 do MST em alimentos. Os sem-terra reclamam do valor. ‘‘É muito pouco. Não dá para comprar quase nada. Agora vamos organizar o nosso pessoal para que além do trabalho coletivo, as decisões sejam coletivas também’’, disse o sem-terra Celso Schardosin.
Os sem-terra acampados na Mitacoré plantaram aproximadamente 200 alqueires de soja, 200 alqueires de milho, além de algodão e mandioca. Somente de milho foram colhidas cerca de 15 mil sacas, o que deve render aproximadamente R$ 80 mil, segundo cálculos dos dissidentes.
A coordenação regional do MST alega que o montante em dívidas para o plantio de todas as culturas chega a R$ 150 mil. A Fazenda Mitacoré, que tem 1.098 hectares, foi invadida em agosto do ano passado por 200 famílias. A área pertencia ao grupo Bamerindus e está sob intervenção do Banco Central.Ney de SouzaDissidênciaFamílias que não concordaram com a divisão do lucro feita pelo MST montaram novo acampamento; líderes do MST dizem que não houve desviosEdna Mendes

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