Renal crônico aproveita diálise para estudar
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sábado, 15 de outubro de 2005
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Doze horas por semana. Este é o período que o representante comercial José Benedito Narciso, 49 anos, fica preso à máquina de hemodiálise numa clínica em Londrina. Em vez de se deixar abater pela doença, ele buscou apoio de uma escola particular da cidade para aproveitar o tempo gasto no tratamento para aprender idiomas. A meta é mobilizar outros pacientes para também estudar, mostrando que é possível vencer na vida apesar dos problemas de sa©úde.
A própria história de vida de Narciso é um exemplo de superação das adversidades. Para ele, a fé foi essencial para manter viva a vontade de superar cada obstáculo. E foram muitos. Desde o alcoolismo, que o levou a perder o emprego e a família, até o diabetes, que resultou na amputação parcial da perna direita.
Nascido em Nova América da Colina, ele mudou-se ainda jovem para Ibiporã acompanhando o pai, funcionário público. Começou a trabalhar muito cedo, como ajudante de frentista, e venceu no setor de seguros. Foi um dos maiores vendedores do País.
A rotina tranquila do bom emprego e vida feliz ao lado da mulher e da filha pequena foi interrompida por um vício que manifestou-se desde cedo. Narciso revela ter começado a beber com apenas 14 anos. Cerca de uma década depois os efeitos do álcool passaram a afetar o comportamento dele. ''Faltava ao serviço, chegava cheirando a bebida e totalmente desalinhado. Perdi o emprego e fui posto para fora de casa pela esposa. Com razão, porque ninguém aguenta viver com um alcóolatra. Cheguei ao fundo do poço'', lamenta.
A vida, no entanto, mostrou que ele estava um pouco enganado. O fundo do poço ainda estaria por vir. No início dos anos 1990 ele partiu de Guaratuba, no litoral paranaense, e passou a ''vagar pelo mundo.'' Caminhava pelas praias, conseguia comida em troca de pequenos serviços e sobrevivia. Passou pela Ilha de Marajó, no Pará, e chegou ao garimpo em Aruanã, em Goiás.
A exemplo da personagem de Fernanda Montenegro no filme ''Central do Brasil'', foi escrevente de cartas. O pagamento era com o ouro do garimpo. A bebida que consumia era álcool combustível com groselha. Mas teve de fugir da região após uma chacina.
Perdido na mata, rezou e prometeu lutar contra o vício do álcool. Uma das passagens mais emocionantes da história é a chegada dele a Goiás Velho. Sujo, após vários dias na floresta, buscou ajuda num banco da cidade. Quando seria expulso do local, ocorreu o que considera um ''milagre.'' ''Coloquei a mão no bolso de trás da calça e achei minha carteira de trabalho com registro do banco, onde já tinha trabalhado. Eles fizeram contato com a minha família e voltei para Londrina'', relata. Mesmo de volta, passou por outras provações e recaídas, mas venceu a batalha e está há 15 anos sem beber.
Atualmente, dedica o tempo ao trabalho voluntário numa entidade de recuperação de drogados. Ainda atua como representante da revista local ''Drogas - Apague Essa Idéia.'' Dirige o carro pela cidade, mesmo depois de ter amputada parte da perna direita por causa do diabetes e ter colocado uma prótese. ''Era para andar em quatro meses, mas treinei com o implante no quarto e voltei a andar em três dias'', diz.
Agora, quer incentivar outros pacientes renais crônicos a estudar. A parceria com uma escola de idiomas foi confirmada. O dono da institução de ensino, Manoel Ferreira da Silva, prontificou-se a fornecer o material didático para estudo e acompanhamento com professor. Tudo de graça. ''Tudo o que consegui é resultado da minha fé. Qualquer homem estaria morto por passar o que eu passei. Mas a minha fé me anima''.


