Uma intervenção da Vigilância Sanitária (VS) motivada por denúncias de vizinhos incomodados com o acúmulo de lixo em uma casa na Avenida Duque de Caxias (Área Central) expôs um drama escondido por muros altos. Depois de obter ordem judicial para entrar na residência, os agentes da VS depararam-se com uma quantidade de lixo cuja retirada havia ocupado, até ontem, 16 caminhões. A situação é reflexo da doença mental dos moradores, dois idosos diagnosticados como psicóticos que vivem sozinhos na casa há mais de 10 anos.
Os irmãos, Simões e Lucindo Neves, 73 e 71 anos respectivamente, viviam em condições subumanas. Além do lixo acumulado em todos os cômodos das duas casas do lote e no quintal, eles conviviam com 12 cachorros e não tinham água nem luz encanada. Ontem, após mais de uma semana de limpeza, ainda havia muito lixo na casa e vários ninhos de ratos. Aparelhos eletrônicos diversos - alguns com mais de 30 anos -, embalagens plásticas, computadores velhos e até lixo hospitalar foram encontrados pelos agentes da VS.
A irmã dos idosos, Maria Judith das Neves, 64 anos, conta que a saúde mental dos dois começou a piorar em 1991, quando a família que cuidava de ambos mudou-se. A partir daí Simões, cuja doença já havia sido detectada em 1959, começou a se tornar mais agressivo e a desenvolver uma mania de juntar e guardar objetos. O comportamento dele acabou por causar o fechamento da oficina eletrônica do irmão Lucindo. ''Ele ficava na porta falando palavrões e os clientes foram sumindo'', diz.
Dona Judith cuidava dos irmãos mas não tinha acesso à casa. ''Eles não deixavam eu entrar, eu sempre perguntava se eles tinham cobertores, colchões, se estavam fazendo limpeza e eles sempre diziam que estava tudo bem''. Segundo ela, Lucindo não aceitava ir ao médico e o outro irmão chegou a ser internado várias vezes sem solução. ''Ele tinha um problema sério na perna (úlcera flebopática) que atrapalhava, quando eu internava para tratamento mental eles não queriam cuidar por causa da ferida, em hospital normal não aceitavam porque era doente mental'', diz. Nos últimos tempos, ela omitia que o irmão era doente mental para conseguir tratamento para a perna.
A vizinhança também desconhecia a real situação dos idosos. ''A gente como cristão sempre auxilia e faz doações aos outros mas nunca podia imaginar que aqui do lado duas pessoas viviam nessas condições'', afirma o comerciante José Peccinin, 58 anos. Segundo ele, há anos a vizinhança vem alertando as autoridades do acúmulo de lixo mantido na casa. ''Imagine se tivesse pegado fogo ali, a quadra inteira teria queimado''.
Vários focos de dengue foram encontrados no local. Segundo o chefe da VS, Marcelo Viana de Castro, essa foi a pior situação já registrada pelo órgão. ''Os vizinhos reclamavam há tempos mas tínhamos dificuldade em encontrar os parentes para autorizar a entrada''.
Atualmente os dois senhores estão sob os cuidados do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e serão transferidos para o Lar Feliz, uma casa de repouso em Sarandi, na região metropolitana de Maringá. ''Graças a Deus eles não vão mais ficar ali'', diz, aliviada, dona Judith, que vai vender um terreno para custear a internação dos irmãos.

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