A decisão de transferir as 42 famílias do fundo de vale do Conjunto José Belinati, na zona norte de Londrina, para um terreno com infra-estrutura na zona oeste, foi recebida com ceticismo. Calejados, os moradores se recusam a comemorar antes de estarem instalados no novo local. O entusiasmo contido se justifica pelo histórico destas famílias. Esta não é a primeira que, segundo os moradores, a Cohab promete conseguir um local para transferí-los. ‘‘Tudo o que recebemos nestes seis anos que estamos aqui foram promessas que nunca foram cumpridas’’, afirma Marli da Silva.
O sentimento é compatilhado pelos outros moradores. Márcia de Oliveira resume o estado de ânimo dos colegas. ‘‘Nós só vamos acreditar que desta vez é sério quando a Cohab chegar aqui e disser que podemos arrumar nossas coisas que amanhã estaremos mudando’’, diz.
Apesar de cética também, Marli da Silva deixa escapar um pouco do entusiasmo que todos estão lutando para não deixar aflorar, com medo de uma possível desilusão. ‘‘Se eles (funcionários da Cohab) cumprirem o que estão dizendo vai ser maravilhoso.’’
Segundo os moradores, em reunião realizada terça-feira com representantes da Cohab, eles foram informados que o terreno na zona oeste terá água e luz. ‘‘Disseram até que se entrar uma verba que estão esperando vão levantar umas paredes para nós. Mas deixaram claro que não é promessa. Isto vai depender do dinheiro’’, informa Márcia de Oliveira.
Marlene da Silva Fogaça é outra moradora que teme acreditar na nova expectativa de mudança de vida, apesar de querer muito melhorar. Com quatro filhos – entre um ano e sete meses e 10 anos – ela e o marido conseguem R$ 100,00 por mês como catadores de papel. ‘‘Nem te conto, minha filha, como a situação aqui é difícil. Falta luz, não temos água, não temos banheiro.’’
Apesar de o presidente da Cohab, Agnaldo José da Rosa, ter afirmado para a Folha que em 60 dias pretende transferir as pessoas (leia texto nesta página), Marlene Fogaça e os demais moradores dizem que para eles não foi informado um prazo.
A localização do novo terreno também não foi revelada para as famílias. ‘‘Disseram apenas que é um lugar muito bom’’, diz Márcia de Olveira. As famílias sempre foram resistentes a sair das proximidades do Conjunto José Belinati. ‘‘Mas também eles já levaram a gente para ver cada terreno em lugares piores do que aqui’’, acrescenta Marlene Fogaça.
O primeiro foi no Jardim São Jorge, na zona norte, há três anos. ‘‘Era um lugar tão longe que nem era mais Londrina. Temos filhos e alguns bicos que fazemos em Londrina para ganhar a vida. Como vamos mudar para tão longe se não temos dinheiro para isso?’’, indaga Márcia de Oliveira.
Outro local apresentado pela Cohab foi no Jardim Campos Verdes, na zona oeste. ‘‘Tinha um sujeito lá que era dono de uma favela. Ele quase linchou nós e a funcionária da Cohab porque não queria que ficássemos lᒒ, afirma Marlene fogaça. Agora, os moradores não conseguem disfarçar certa expectativa em relação à nova área: ‘‘Estamos pegando qualquer coisa. E este lugar, embora não tenham dito onde é, disseram que tem posto de sa© úde, creche, tudo perto. Seria maravilhoso’’, diz Marli da Silva.

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