Diversos itens da relação municipal de medicamentos essenciais, que deveriam ser distribuídos gratuitamente aos pacientes, estão em falta nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) da Zona Norte de Londrina. O problema atinge desde remédios mais simples como analgésicos, antialérgicos e antibióticos, até comprimidos para tratamento de diabéticos.
A denúncia partiu do segurança Cláudio Luiz dos Santos, 39 anos, que há quase duas semanas vem rodando postos de saúde da região onde mora e conversando com usuários que não conseguiram remédios receitados nas próprias UBSs. A iniciativa foi provocada por uma frustração própria: no último dia 9, Santos procurou um medicamento na UBS do Conjunto Parigot de Souza para a filha, que estava com problemas respiratórios, e foi informado de que o mesmo ''não estava disponível''. Com base em informações obtidas com pacientes e, extra-oficialmente, com funcionários, Santos diz ter descoberto a falta de pelo menos 15 medicamentos diferentes na rede.
''É um mínimo necessário que tem de ser mantido nos postos pelo Município. Se está faltando, ainda que seja provisório, é porque não houve planejamento, uma incompetência de quem está gerindo o sistema'', critica Santos. Até a manhã de ontem, ele já havia visitado seis UBSs da Zona Norte e reunido cerca de 30 nomes de pacientes que não conseguiram medicamentos. Ele apresentou à reportagem 12 receitas expedidas por médicos dos próprios postos e também do Hospital da Zona Norte (HZN), contendo itens não obtidos gratuitamente pelos pacientes.
Um desses casos é o da dona-de-casa Doraci de Fátima Borges, 45 anos, moradora do Conjunto Ruy Virmond Carnasciali. Nos últimos dias ela constatou que dois medicamentos estão em falta na UBS do bairro - o antialérgico Celestamine (Dexclorfeniramina, Maleato), receitado para o filho Matheus, 8 anos, e a Metformina, comprimido que Doraci toma duas vezes ao dia para diabete.
''O Matheus estava com faringite, a respiração fechando. O médico receitou o remédio, mas disse que não tinha no posto. Falou que, se ele piorasse, eu deveria procurar um hospital. Não tive condições de comprar. Passei um óleo que tinha em casa na garganta dele'', contou. Já a Metformina, segundo Doraci, costuma faltar na UBS a cada dois ou três meses. ''Aí deixo de comprar uma mistura, de pagar uma conta d'água, pra pagar o medicamento com o salário do meu marido, que é pedreiro'', lamenta.
Desempregada, a doméstica Edivalda Ferreira da Silva, 43 anos, já foi até em igreja pedir remédio para a filha Evelin, de três anos. O antibiótico Bactrin (Sulfametoxazol com Trimetropim) é um dos 54 ítens da lista de medicamentos essenciais a serem fornecidos nas UBSs. Na do Conjunto Aquiles Stenghel, entretanto, está em falta. ''Com esforço, consegui um vidrinho de amostra grátis que acaba hoje (ontem), às 22 horas. Estou dividindo meu tempo entre levar a menina para fazer inalações, procurar emprego, e tentar conseguir a doação do remédio. Isso porque seria um direito nosso'', enfatiza.
O segurança Cláudio dos Santos diz que sua meta é concluir visitas a pelo menos 20 UBSs de todas as regiões nos próximos 15 dias e, de posse dos nomes de pacientes negligenciados e suas receitas médicas, formalizar denúncia no Ministério Público (MP) e na própria prefeitura.

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