Ter um corpo esbelto e medidas perfeitas se tornou obsessão, principalmente nos países em que a imagem é supervalorizada. Pessoas dispostas a perder os quilos extras não medem esforços e fazem uso de inibidores de apetite, popularmente conhecidos como boletas. Durante anos, um dos mais populares foi o ''femproporex'' que, depois de anos liderando as vendas, perdeu espaço para a sibutramina, que se tornou a ''queridinha'' nos tratamentos de emagrecimento na última década. A substância é o principal componente de diversos remédios para emagrecer. A venda do produto foi regulamentada no início do ano pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas em Londrina é possível comprá-lo sem grandes dificuldades e sem receita.
O medicamento não pode mais ser vendido apenas com a receita branca não numerada (em duas vias), que era fornecida por qualquer médico. Segundo a resolução da Anvisa, o remédio com esse composto só pode ser vendido mediante a apresentação da receita azul (B2), pois o produto deixou de ser tarja vermelha e passou a ser classificado como tarja preta, mesma classificação dos psicotrópicos anorexígenos. Dependendo da atividade médica, a Vigilância fornece uma quantidade diferenciada de receitas ao profissional.
Na região Oeste de Londrina, a FOLHA teve acesso ao medicamento, sem apresentar prescrição médica, ao valor de R$ 60 a caixa com 30 comprimidos de 15 mg. A caixa ainda era de tarja vermelha, o que não extingue a necessidade do receituário médico. O produto foi vendido pela própria farmacêutica, que orientou como o remédio deveria ser tomado. Nas farmácias credenciadas pela Vigilância Sanitária, a caixa com 30 comprimidos de tarja preta com a mesma dosagem pode ser adquirida pelo preço entre R$ 30 e R$ 35.
Mais fácil ainda foi conseguir no mercado paralelo. Logo na primeira tentativa, uma vendedora do Camelódromo indicou sem receio onde o produto poderia ser comprado. Em meio a roupas esportivas, abordado pela reportagem, o vendedor prontamente tira de uma sacola preta três cartelas enroladas em um plástico, também de cor preta. As cartelas podem ser compradas separadamente ao preço de R$ 15 com 10 comprimidos; ou por R$ 45 com 30 comprimidos. Como se fosse um médico, o vendedor ainda dá orientações de como tomar o remédio e que é preciso fazer uma ''caminhadinha'' e não comer ''pudim'' todos os dias.
A reportagem visitou outras nove farmácias. Das sete que comercializavam medicamentos controlados, a resposta foi de que o produto só poderia ser vendido com prescrição. Em uma delas, o farmacêutico disse que até venderia sem receita, mas o produto do lote antigo havia acabado na semana anterior.
O remédio comprado pela reportagem na farmácia será entregue à Vigilância Sanitária, e o adquirido no Camelódromo para a Polícia Federal.
Pesquisa
A decisão na mudança de rotulagem no Brasil se deu após estudo realizado com base na pesquisa Sibutramine Cardiovascular Outcome Trial (Scout), feito pelo laboratório Abbot, a pedido da European Medicines Agency (Emea), em que um dos resultados demonstrou aumento do risco cardiovascular não fatal nos pacientes tratados com a substância. Apesar de os resultados oficiais ainda não terem sido publicados, o produto passou a ser totalmente restrito na União Europeia. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) manteve o remédio nas prateleiras, porém com mais recomendações dos riscos na bula.

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