Religião na escola é falar de pão, de trabalho
Não existe educação integral se entre os valores físicos, intelectuais, afetivos, artísticos, de saúde, não existir também o valor religioso
Folha Gostaria que o senhor fizesse uma retrospectiva de sua trajetória, dos principais momentos, partindo da época da ditadura militar, quando era bispo auxiliar em Curitiba. O senhor sempre se mostrou preocupado com os direitos humanos e como foi o seu trabalho naquela época?
Dom Albano Cavallin Deus me fez com um temperamento um tanto calmo, mas sempre metido em encrencas e conflitos. Não que eu goste. Oxalá todas as vezes que eu entrei nesses conflitos tenha sido para viver a minha missão e o Evangelho do Senhor. Por exemplo, estive em grandes greves dos professores do Estado do Paraná. Lembro-me na frente de 900 professores no salão do Colégio Estadual, mas sempre numa missão de intermediário. Mas eu tenho medo dessa missão porque eu conheço alguém que quis ser intemediário na sua vida e morreu pregado numa cruz. Chama-se Jesus. Ele quis harmonizar os homens com o Pai e a sorte dele foi a cruz. Então, por temperamento, eu vivo nessa missão. Muitíssimas vezes tive que cumprir essa missão. Por exemplo, outra ocasião foi com os presos políticos. Eu, a pedido do próprio general, naquele tempo, sabendo que eu tinha, essa missão. Ele pediu que eu fosse visitar os presos.
Folha Que general?
Dom Albano Samuel. O sobrenome, agora, eu não me recordo. Para os presos eu dizia venho aqui porque preciso que no Brasil a ditadura não cometa faltas, pecados, como esses. Outras vezes eu tinha amigos. Eu ia até a Secretaria de Segurança na defesa deles. Eu ia sempre um pouco ingênuo. Eles mentiam.
Folha Quem mentia?
Dom Albano Os homens que trabalhavam lá. Eu gosto de acreditar nas pessoas. Talvez essa simplicidade ajudou a abrir as portas. Eu venho aqui porque me disseram que essa pessoa está prisioneira. Não, não está. Depois eu descobri que foram torturados e tudo isso. Eu fazia essa missão de defesa das pessoas. Mas acredite. Eu nunca pertenci a nenhum partido político a não ser o partido de Jesus. Então essa foi a minha missão. Eu gostaria de, quando morrer, que nunca me considerassem um político. Mas um homem de Igreja. Um homem do evangelho, que por causa desse evangelho eu trabalhei onde as vezes não queria ter trabalhado.
Folha Nos porões da repressão...
Dom Albano Eu ia para a Penitenciária do Estado, eu ia ao Regimento de Cavalaria, eu ia na prisão da Polícia Militar de Curitiba. Rezava a missa com eles, conversa com eles, ia visitar as famílias deles. Por causa da longa estadia, as vezes as famílias se cansavam e começavam a levar outra vida. São as dores daquele período difícil.
Folha Durante quanto tempo o senhor fez isso?
Dom Albano Foi um período de 10 anos na ativa.
Folha O senhor falou que tinha amigos lá. Eram religiosos também?
Dom Albano Eram amigos que ficaram prisioneiros. Eu os visitava à noite. E procurava fazer a defesa do que eles pediam, ou interceder.
Folha O senhor tem alguma história, um fato marcante dessa época para contar?
Dom Albano Lembro de um cômico. Houve a perseguição de uns monges e um dia, esses monges, para escapar, vestiram-se de mulheres. Eu frenquentava muito o diálogo buscando que as coisas não fossem cruéis. Eu não entendia muito dessa coisa de prisão, de torturas.
Folha O que os presos políticos pediam para o senhor?
Dom Albano A primeira coisa que eles pediam, acho que todos nós pediríamos, era gente que estivesse ao lado deles. Essa coisa eu procurei fazer. Gente que visitasse as famílias deles. Gente que falasse com os advogados deles. Gente que falasse também sobre o perigo de certas coisas, gente que falasse com as autoridades.
Folha Esse trabalho foi solitário?
Dom Albano Eu era representante da Arquidiocese. Era membro da Comissão de Justiça e Paz.
Folha Depois, em Londrina, no ano passado, o senhor teve uma participação no Movimento pela Moralização na Administração Pública. Como foi esse trabalho?
Dom Albano Foi um trabalho muito doloroso para mim.
Folha Por que?
Dom Albano Porque como bispo a gente cultiva a amizade com as autoridades. Eu procurava sempre tratar bem todas as pessoas. Fiz oração junto com a professora Belinati (Emília Belinati, vice-governadora do Estado, esposa do ex-prefeito cassado, Antonio Belinati). Depois, diante do contexto, eu representava os irmãos, os católicos, escrevi uma carta.. a gente faz isso por missão. Mas me custou um pouco.
Folha Mas o senhor acha que a cidade, que as pessoas mudaram?
Dom Albano Londrina deu um passo e até serviu de exemplo para outras cidades.
Folha O senhor defende a volta do ensino religioso nas escolas. Como ele deveria ser?
Dom Albano Primeiro, a partir do conceito que não existe educação integral se entre os valores físicos, valores intelectuais, valores afetivos, valores artísticos, valores de saúde, não existir também o valor religioso. O homem não é apenas um animal. O homem tem valores espirituais. Não é só falar de céu. Falar de pão, de trabalho. Mais ou menos como a campanha da fraternidade. Sem deixar de falar de Deus, da espiritualidade, desse conjunto todo que vai formar a verdadeira religião, a verdadeira espiritualidade.
Folha Por que o senhor tem o hábito de contar histórias em suas pregações?
Dom Albano Eu acho que a história não ofende, não força. Até uma vez eu fiz uma comparação. Para mim a história é como esses coquetéis que a gente leva bolinho de carne, esfiha, e cada um, com aquela apresentação, pega o que quer daquele prato. Assim também é com a história. Há certas histórias que trazem mensagens sobre o amor, sobre sofrimento. Quer que eu conte uma?
Folha Quero.
Dom Albano Segundo a lenda, os passarinhos não tinham asas. Até o dia em que o bom Deus colocou sobre eles dois pedacinhos, em cima das costas. Foi difícil, ajusta para cá, era pesado, arruma, arruma, arruma. Até que um dia eles se transformaram em asas e os passarinhos voaram por esse mundo afora. O sofrimento às vezes parece peso, mas ele nos liberta de muita bobagem, de muito apego e nos permite voar em busca do bem, da verdade, da felicidade.





