Vale a pena ser religioso na cadeia. Um dos motivos é que os demais presos evitam fazer provocações aos que seguem alguma das facções religiosas. Segundo alguns detentos, as vantagens são inúmeras. Por exemplo, quando acontece uma briga, na maioria das vezes os agentes penitenciários acreditam na versão dos ‘‘presos-religiosos’’.
Condenado por assalto, um dos presos, que preferiu não se identificar, conta que deixou de ter problemas, dentro da Prisão do Ahú, depois que passou a frequentar os cultos da Igreja Católica. ‘‘Entre os praticantes existe uma grande irmandade. Muitas vezes, os preceitos da Bíblia são esquecidos e se usa a mentira para resguardar os amigos’’, diz.
Ele conta que entrou numa briga com outro detento por causa de uma dívida. ‘‘Quando o agente chegou, sobrou para o outro, porque um fiel me ajudou’’, recorda. ‘‘Os agentes vêem com bons olhos os religiosos, afinal muitos são também religiosos’’.
Neraldino Gomes Ferreira, condenado a quatro anos por furto, conta que quem é esperto pode tirar bom proveito dos pastores e padres. ‘‘Eles chegam dispostos a ajudar todo mundo. Aí, você finge um pouco e consegue até dinheiro de alguns’’, afirma.
Joio do trigo - Mas quem trabalha entre os presos sabe distinguir quando a presença do detento nos cultos segue apenas interesses ou se há vontade em melhorar na vida. ‘‘É possível separar o joio do trigo, apenas com o olhar’’, afirma o ancião da Congregação Cristã, Vanderli Canuto Vaz. Ele explica que o devoto modifica sua forma de ser como um todo, passando por uma transformação que vai desde a voz até o jeito de vestir.
O frade José Orlando de Carvalho Sá, da Comissão Pastoral Carcerária, conta que o comportamento dos presos é o espelho de seus interesses. ‘‘O preso sofre influência do local onde está detido’’, avalia. Ele, que trabalha com detentos há três anos, conta que, na Prisão do Ahú, onde muitos deles estão aguardando o julgamento, ainda existe esperança. ‘‘Na Central, que guarda os condenados, existe desânimo’’, descreve. ‘‘No Manicômio Judicial, não existe razão e o conforto é mais espiritual’’, complementa.
Espíritas - O trabalho comunitário junto aos presos não se limita às igrejas evangélicas e católicas. A Federação Espírita do Paraná também oferece cultos e palestras. ‘‘Tentamos repassar conceitos da doutrina cristã, dentro da visão de Allan Kardec’’, diz Jacy Micoski Ribeiro, que ministra as palestras.
Dentro da Prisão do Ahú, existem dez seguidores da doutrina entre os 800 presos. ‘‘É um grupo pequeno, mas sempre surge alguém que confunde os espíritas com os espíritos, podendo mais tarde tornar-se um seguidor’’, informa Jacy.
‘‘Passei por todos os cultos dentro da cadeia e me identifiquei entre os espíritas’’, diz o preso Franciso Geraldo, condenado por assalto a banco. Ele conta que cada uma das igrejas adota um estilo para interagir com os presos. ‘‘Eles repassam o mesmo discurso, que no fundo toca muito pouco as pessoas’’, comenta. (I.R.)

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