Relatos de adolescentes no Cense I
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sexta-feira, 30 de abril de 2010
Fernanda Borges<br>Reportagem Local 
Eles têm rostos de criança e muitos mal saíram da infância. O mais novo possui 12 anos de idade e vários levam consigo as espinhas que revelam o período instável da adolescência. Eles sofrem as consequências de atos criminosos e impensados aguardando que o Judiciário determine o rumo de seus próximos dias. Os adolescentes do Centro de Socieducação de Londrina I (Cense I) cumprem medida cautelar denominada internação provisória. Os atos infracionais são vários: homicídio, tentativa de homicídio, tentativa de latrocínio, roubo, tráfico de drogas. A reportagem da FOLHA percorreu o interior do Cense I em uma manhã de sábado, durante um evento realizado por voluntários.
Com frieza no olhar, Leandro, 17 anos, confessa ter tirado a vida de um idoso. Ele dá detalhes do homicídio como quem fala de qualquer assunto. ''O velho folgado estava mexendo comigo então eu atirei contra ele mesmo. Fiquei com muita raiva'', disse.
Já Letícia, 15, revela que conseguiu comprar uma arma de fogo só para assustar uma adolescente com quem tinha uma rixa. Ela disse ter sentido raiva porque a garota ficou com seu namorado. ''Eu não ia atirar nela, era só para dar uma coronhada e deixá-la assustada. Mas na hora a polícia chegou e eu tive que dispensar o revólver'', comentou.
Alas separam os meninos por grupos. Tem a ala dos que acabaram de chegar, dos mais ''velhos'' na unidade e também dos que, de alguma forma, oferecem riscos a outros meninos. ''Ainda há resquícios de meninos envolvidos com dívidas do tráfico de drogas de um bairro contra outro. Então, para evitarmos problemas, precisamos mantê-los separados'', explica o diretor da unidade, Márcio Schimidt.
Júnior, 17, parece sentir orgulho em dizer que cheirou R$ 6 mil em cocaína em uma semana. Para o menino de família desestruturada, manter o vício era seu único objetivo de vida nos últimos tempos, antes de ser apreendido acusado de homicídio. ''A gente tem que andar armado se não alguém vem e mata a gente'', disse. Júnior não se incomoda em dizer que é reincidente. ''Eu saí, fiquei um tempo limpo mas logo voltei para essa vida. A gente não consegue ganhar dinheiro e eu tinha muita vontade de usar droga'', desabafa.
Entre os atos infracionais, o tráfico de drogas parece predominar. Muitos adolescentes trazem em seus corpos marcas de brigas, cicatrizes de facadas, mas também tatuagens que revelam algum tipo de sentimento fraterno. No braço de Marcelo, 14, a mensagem ''Amor só de Mãe'' revela um pouco da visão do menino confuso em relação à vida. Dias antes da conversa que teve com a reportagem, ele havia levado uma surra de outros adolescentes na unidade . Olhos roxos e corte na cabeça destoam com o rosto de criança. ''Essa é a segunda vez que eu vim para cá. A gente sai, volta para casa, mas sempre aparece alguém que faz a nossa cabeça.''
Ainda que estejam inseridos num cronograma de atividades diárias propostas pela unidade, os adolescentes sentem o peso de estarem recolhidos, e muitos deles passam a refletir sobre o que fizeram. ''Quero voltar para casa. Isso aqui não é vida não. Minha mãe arrumou um cômodo no fundo de casa para mim e para minha namorada. Vamos ficar lá e cuidar do meu filho quando eu sair'', comenta Marcos, 16 anos, que diz arrependido de participar de um assalto a mão armada.
Marcela, 17, garante que a passagem pela unidade está sendo uma ''libertação''. Cansada de ficar apreendida, a adolescente conta os dias em que está no Cense I e afirma que não quer nunca mais se envolver com drogas. ''Isso aqui está sendo uma libertação para mim. Sofro muito aqui dentro, não aguento mais e quero voltar pra casa'', relata.
* Os nomes dos adolescentes são fictícios


