Curitiba - Os conflitos, guerrilhas, a luta e os movimentos sociais dos trabalhadores rurais do Paraná, no período pré-Ditadura, só se comparam em intensidade de violência, mobilização e impacto social, aos ocorridos em Pernambuco, Paraíba e Goiás. Considerando que o Brasil, na época, tinha nas áreas rurais o equivalente a 40% de sua população, o tema merece atenção já que dele surgiu o reconhecimento do homem do campo como cidadão e até mudanças significativas na configuração territorial no Estado.
A avaliação é dos participantes do seminário ''Memória Camponesa'', realizado na semana passada, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Durante o evento, que contou com uma boa parte dessas testemunhas oculares, foram gravados preciosos relatos. Assim, os pormenores desses movimentos sociais agora irão transcender a carência de registros documentais aprofundados.
Um dos exemplos citados para mostrar a importância do movimento social é o que aconteceu no Sudoeste. Hoje a região é formada por 42 municípios, graças aos camponeses, que expulsaram de lá as companhias de colonização na ''Revolta dos Colonos do Sudoeste'', em 1957, e que possibilitou, depois, o assentamento de mais de 57 mil famílias. Caso contrário, a região poderia ser formada apenas por Francisco Beltrão, Pato Branco, Capanema, Santo Antônio e Barracão. Também não é à toa que no Sudoeste a prática da agricultura familiar se apresenta de forma mais intensa no Paraná. Também é fruto deste movimento social.
Antes de 1964, os camponeses da região sofreram com as barbaridades e crimes de extrema crueldade praticados pelos jagunços das companhias de colonização, que se diziam donas das terras. ''Eram 523 mil hectares que poderiam, hoje, ser latifúndios. A revolta foi de 9 a 15 de outubro, de 1957, e ganhou apoio de todos porque a violência foi grande, os jagunços eram orientados a intimidar os pequenos produtores'', conta Giácomo Trento, mais conhecido como ''Porto Alegre''.
''Porto Alegre'', na época com 25 anos, era vendedor de rádios na região e foi figura importante, tomava conhecimento das atrocidades durante suas andanças e repassava para Ivo Tomazoni divulgar na Rádio Colméia, de Pato Branco. ''Eu saía na segunda-feira e voltava no sábado para contar tudo a ele. Os jagunços faziam horrores.''
Outro conflito armado importante foi a ''Guerrilha de Porecatu'', na região Norte, no final dos anos 40. ''Em Porecatu não foi um levante, como no Sudoeste, mas uma guerrilha mesmo. As pessoas se organizaram em bandos armados de resistência contra os fazendeiros'', contou um dos organizadores do seminário, o professor do Centro de Estudos Rurais e Ambientais da UFPR, Osvaldo Heller da Silva. ''Na década de 1980, a FOLHA, inclusive, fez uma série de reportagens resgatando a Guerrilha de Porecatu. Provavelmente um dos registros mais importantes e extensos sobre a luta'', pontuou o docente.

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