Relatório interno não apontou nenhum desvio
Dimitri do Valle
De Curitiba
Como dois relatórios sobre um mesmo caso fornecem resultados diferentes? A comissão de investigação nomeada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado não nominou culpados na compra das jaquetas. É um relatório genérico que admite falhas, mas não chega a uma conclusão final, ao contrário do trabalho desenvolvido pelo Ministério Público. A resposta pode estar na campanha eleitoral de 1998 que levou Jaime Lerner ao segundo mandato como governador. A participação do comando da PM na busca pelos votos foi bastante atuante.
A Folha obteve uma fita de vídeo que comprova as ligações políticas entre o governador e o então comandante geral da PM, coronel Luiz Fernando de Lara. Esta dívida para com seu subordinado pode responder porque Lerner demorou tanto para mudar a cúpula da PM apesar das graves denúncias que recaíam sobre o coronel, gerando mal-estar entre oficiais da ativa e da reserva.
Num encontro organizado pelo então comandante durante a campanha eleitoral, quando compareceram Lerner, políticos, secretários de Estado e os presidentes da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Justiça, Lara não economizou elogios ao governador, que segundo ele, foi o responsável pelo resgate da auto-estima da tropa ao melhorar salários e comprar equipamentos.
O encontro era um balanço sobre 13 seminários realizados em 1998 nos batalhões da PM no Estado. Estes debates, que reuniam em média cerca de 500 policiais, suscitaram na época a suspeita de serem verdadeiros comícios à favor da candidatura Jaime Lerner. Durante seu discurso, Lara afirma indiretamente sua posição à favor da continuidade de Lerner no governo. Senhor governador, voltar atrás nunca mais, discursava, referindo-se ironicamente ao antigo mote de campanha do principal rival de Lerner, o senador Roberto Requião (PMDB).
Durante a apresentação do vídeo sobre os debates nos batalhões, o coronel aparece dando entrevista e declarando ter assumido uma Polícia Militar sucateada. Enquanto discursava para a platéia, Lara ostentava, no lado esquerdo do paletó, o broche do símbolo de campanha de Lerner, um coração vermelho. Tradicionalmente, os comandantes da PM não assumiam posturas tão públicas de apoio a candidatos ao governo.





