Há 22 anos, a situação dos bahá'ís iranianos já beirava o insuportável. Suas sedes e escolas foram fechadas ou transformadas em ''bens islâmicos''. Proibidos de ingressar no serviço público, os fiéis também não podiam manter negócios próprios. Para o governo, seu dinheiro era ''impuro''.
Foi nesse cenário que a família de Rouhangiz Hamidi, hoje com 50 anos, começou a alimentar a ideia de deixar do país. Ou melhor: fugir, pois os fiéis da minoria religiosa estavam impedidos de tirar passaporte. O plano era viajar de Teerã até a fronteira com o Paquistão e, de lá, buscar asilo num escritório da ONU.
Para isso, os Hamidi deram o carro e a casa que tinham em troca de ajuda na fuga. Com apenas uma bolsa de roupas como babagem, ela, o marido e os dois filhos pequenos literalmente correram durante oito horas na região entre os países. Detalhe: a criança mais velha tinha dois anos e a caçula, apenas 40 dias. ''Dormi na areia, com o bebê deitado no meu peito'', lembra.
Já no Paquistão, a família encarou mais dois dias dentro de um trem, ainda sob o risco de ser descoberta, até chegar ao posto das Nações Unidas. Na época, o governo brasileiro era um dos que mais acolhia bahá'ís refugiados, e foi para cá que eles vieram.
Conseguiram empregos e se adaptaram rapidamente, mas muitos de seus parentes ainda sofrem no Irã. ''Desde então, não vi mais a minha mãe. E meu pai morreu quando já estávamos aqui'', conta Rouhangiz, para quem o sucesso na fuga foi um milagre. (O.G.)

mockup