Quando conseguem sair do Complexo Médico Penal e têm a sorte de encontrar alguém à sua espera, os doentes mentais enfrentam o drama de serem considerados, de uma só vez, ex-presidiários, loucos e perigosos. ‘‘Eles sonham em reencontrar uma família que os aceite, mas a realidade é permeada por duros preconceitos’’, diz a psicóloga do Departamento Penitenciário do Paraná, Jucélia Maria dos Santos.
A rejeição em determinados momentos é tão forte, segundo a psicóloga, que alguns chegam a pedir para voltar ao hospital ou cometem novos delitos para forçar a remoção. ‘‘A família e os amigos os violentam de tal maneira que eles se sentem inseguros e preferem ficar longe do mundo’’, explica. Essa ‘violência’, muitas vezes inconsciente, faz com que os familiares não aceitem as diferenças de comportamento apresentadas pelo doente mental, obrigando-o a ser ‘normal’.
‘‘A sociedade criou um estigma muito grande ao redor dos loucos, que sempre foram apresentados como malditos’’, diz. Uma das internas do Complexo Médico Penal, uma índia da reserva de Mangueirinha, chegou a ser amarrada por seus companheiros de tribo e submetida a diversos rituais por acharem que ela estava possuída por espíritos maus.
A predisposição para a loucura e para o desajuste social não é uma característica comum apenas aos internos de hospitais psiquiátricos, como o Complexo Médico Penal. Para os especialistas, lá estão as pessoas que não suportaram determinadas situações e acabaram explodindo sua raiva de maneira incontrolável. Fora de lá, nas outras alas do Sistema Penitenciário, estão presos com psicopatias, loucuras latentes e desequilíbrios que os levaram a cometer crimes.
‘‘Submetidos ao dia-a-dia sufocante de um presídio, esses desequilíbrios acabam se acentuando e novos doentes são gerados dentro do próprio sistema’’, afirma Jucélia. Como não são formalmente detectados - a maioria dos presos recusa atendimento psicológico -, os problemas mentais só são descobertos quando um novo crime é cometido e há reincidência de um preso.

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