Reintegrações tem que ser cumpridas
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sábado, 29 de março de 1997
Sucursal de Maringá 
Edson GuittiRespeito a leiProchet não gosta de ser chamado de fazendeiro e critica duramente o movimento dos sem-terra. Há muita terra do governo que pode ser aproveitada. Ele alega que recriação da entidade visa garantir o respeito do direito à propriedadeEm entrevista à Folha, o presidente da UDR do Paraná, Marcos Menezes Prochet, falou sobre o Movimento dos Sem-Terra (MST), reforma agrária, produtividade, áreas invadidas, relacionamento com o Incra e o papel da entidade no atual contexto de conflitos no campo.
FolhaPor que recriar a UDR no Paraná?
ProchetPara que os produtores rurais sejam respeitados perante a sociedade e para garantir a reintegração de posse.
FolhaComo vocês pretendem conseguir isto?
ProchetA lei tem que ser cumprida através dos meios legais para que se cumpra as reintegrações de posse. Existem no Paraná mais de 30 reintegração de posse não cumpridas pelo governador. Então nós vamos ter assessoria jurídica para pressionar o governador.
FolhaPor que os sem-terra estão invadindo mais áreas na região de Querência do Norte?
ProchetÉ um ponto estratégico para o Mercosul. Os proprietários rurais que hoje estão sendo rechaçados, tratados como os vilões da história, estão aqui há 30, 40 ou 50 anos. Vieram para cá quando aqui era pior do que a Amazônia é hoje. O Brasil tem tantos problemas nas fronteiras, tantos problemas de ocupação no Norte. Quem for realmente trabalhador rural e quer um pedaço de terra não pode escolher lugar. Claro, tem que ser terra boa, não pode ser areia, deserto. Mas temos terra boa no Norte, onde precisamos fixar nossas fronteiras. Mas para lá eles não querem ir.
FolhaQuantas áreas invadidas existem na região?
ProchetÉ difícil saber porque toda semana tem invasão. Deve ter aproximadamente 15 áreas. Esta semana invadiram a Fazenda Junqueira e os sem-terra deram cinco dias de prazo para que o proprietário retire todo o gado.
FolhaQual é o papel desta nova UDR?
ProchetQueremos que a classe produtora seja mais respeitada. Que se dê a ela o seu valor devido. Nós somos os sustentáculos deste País.
FolhaA maioria das áreas invadidas não são cultiváveis, pelo menos na região Noroeste. Como vocês explicam isto?
ProchetNa nossa região há muitas pastagens porque a vocação é de pecuária. O milho e o soja não dão aqui como em outras regiões. Só que os sem-terra não consideram pastagens área produtiva. A carne para eles é improdutiva. Nós temos que saber que cada região tem uma vocação. Aqui começa toda uma fantasia criada pelos sem-terra. Eles armam toda uma situação para jogar a opinião pública contra os produtores rurais. Passam a imagem que há fazendas abandonadas, que não tocamos a fazenda. Agora se rodar a região toda do Noroeste, uma ou outra fazenda você vai encontrar meio largada porque o proprietário está descapitalizado. Agora mesmo existe a ameaça de demissões nas lavouras de cana com a mecanização da lavoura. Haverá muitas demissões. Tem que ter um jeito para esta situação.
FolhaE qual é o jeito?
ProchetBom, minha opinião é que o Incra veja as pessoas que queiram vender as suas terras, porque hoje existe uma outra história inventada que os fazendeiros querem vender a terra ao Incra. É tudo mentira. A idéia minha é que se desbrave regiões para fixar gente no Norte do País. A UDR tem que discutir ainda esta idéia.
FolhaMas não há nenhum outro tipo de cultura que possa ser desenvolvida na região para absorver esta mão de obra?
ProchetO que você está falando é que o proprietário rural vai ter que fazer na fazenda dele o que os sem-terra querem, mesmo que a vocação dele é ser pecuarista. Será que o pecuarista terá que virar agricultor por causa dos sem-terra? Se ele quisesse ser agricultor, o proprietário teria comprado terra roxa e não aqui, porque aqui ele vai sofrer, vai gastar muito mais para produzir menos que outras regiões. Eu por exemplo sou um pecuarista. Gosto de mexer com gado. Eu não sou um agricultor nato.
FolhaComo a UDR analisa a reforma agrária?
ProchetA gente tem que parar com hipocrisia. Tem muita gente falando que é à favor da reforma agrária, mas o negócio não é assim. A reforma agrária é necessária pelo social. Tem que ser feito um estudo por entidades, associações e órgãos representativos da sociedade. A reforma agrária deve ser disassociada da política. Do jeito que está sendo feita, com invasões de terra, não é possível. As milícias particulares só existem porque há invasão da propriedade. Estes conflitos não podem acontecer.
FolhaVocês acham que é preciso fazer reforma agrária no Paraná?
ProchetNa minha opinião, não é preciso porque conheço praticamente todo o Paraná e acho que temos outros lugares mais urgentes para fazer a reforma agrária. Depois de fixar todas as fronteiras, há muitas terra do próprio governo que pode ser aproveitada. Se for fazer a reforma agrária em uma região ainda não desbravada vai dar mais trabalho para eles, mas eles não podem receber tudo de graça como esta ocorrendo agora, quando a maioria das famílias recebe cestas básicas e invade fazendas produtivas. Se depois de fazer a reforma agrária nestas regiões ainda existir sem-terra sem área para plantar, aí nós vamos estudar as propriedades que não estão aproveitando a terra para produção. Agora esta é a minha opinião. A da UDR ainda é preciso discutir com os demais integrantes.
FolhaAs invasões não acabam forçando a reforma agrária?
ProchetAcabam porque o proprietário cansa. É uma luta de muitas e muitas gerações. O pessoal cansa de lutar, de brigar contra a política do governo sem subsídios, depois vem os sem-terra e a imprensa taxa a gente de improdutivo, latifundiário, vilão da história. Então, o proprietário acaba vendendo a propriedade para o Incra. Só que com isso, o país esta se acabando.


