O desejo de liberdade a qualquer preço está explícito nos números. Estatísticas da Delegacia de Vigilância e Capturas revelam que, de janeiro a junho deste ano, 394 presos escaparam da Colônia Penal Agrícola do Paraná, localizada em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba. Pela média verificada no primeiro semestre, a cada 24 horas 2,17 presos deixam a Colônia. A população carcerária é de 868 presos, embora a capacidade seja para apenas 810. E não pára de aumentar: só nos primeiros seis meses deste ano, a prisão recebeu 525 novos ‘hóspedes’.
A rotatividade, porém, é grande. A cada 10 dias, 27 presos dão entrada na colônia, mas 22 são considerados foragidos no mesmo período. A maior incidência de fugas ocorreu no mês de janeiro, quando 99 presos não regressaram depois de terem recebido permissão para visitar a família. ‘‘A impressão é que o cara espera ser transferido para a Colônia com o objetivo de fugir’’, afirma o delegado titular da Delegacia de Vigilância e Capturas, Carlos Alberto Neves, que considera o índice ‘‘assustador’’. Como assumiu a função em abril, Neves justifica que não tem meios para comparar com as fugas dos anos anteriores. ‘‘Cada delegado tem sua metodologia de trabalho’’, diz.
A Colônia Penal Agrícola funciona desde a década de 40 e é a única no Estado que abriga condenados com direito a regime semi-aberto de prisão. Lá, a ociosidade dos presídios é substituída por várias atividades. Os presos da Colônia trabalham na criação de bois, aves e carneiros, além de hortas. A unidade dispõe ainda de serralheria, tipografia e olaria. A produção de alimentos, entre carnes e hortaliças, ultrapassa as 500 toneladas por ano. Parte serve para alimentar os internos da Colônia e o restante vai para as unidades do sistema penitenciário estadual. Só a colheita da safra de milho pode superar as 300 toneladas este ano.
Construída numa área de 14,52 quilômetros quadrados, a Colônia Penal não possui muros e está mais próxima de ser uma cooperativa agrícola do que uma unidade correcional do sistema penitenciário paranaense. A ausência de grades e muralhas parece contribuir para as fugas. Puro engano. Segundo o delegado Carlos Alberto Neves, a maior parte delas acontece quando os detentos aproveitam as autorizações da Vara de Execuções Penais para visitar parentes e não voltam.
Depois de saber dos números apurados pela Folha, o diretor da Colônia Penal, Antônio César dos Santos Franco, estranhou que o índice de evasões seja tão elevado. ‘‘Não acredito que seja tão alto. A evasão é a exceção aqui dentro, mas não vou polemizar com o delegado Neves, que é meu amigo’’, declarou. Segundo ele, o índice mensal de fugas é de apenas 5%.
Franco preferiu destacar que desde 1989 não foram registrados casos de homicídios e lesões corporais entre os presos da Colônia. ‘‘Fazemos um trabalho no sentido de conscientizar os internos de que eles podem se reintegrar à sociedade’’, diz. ‘‘Têm muitos que saem daqui e são exemplares chefes de família’’, observou.Albari RosaPerto da liberdadeDeoclides de Melo, na Colônia desde agosto de 95, considera-se um preso modelo e espera a condicional ainda para esta semanaMesmo vivendo em um presídio que mais parece uma fazenda, detentos não deixam de sonhar com a liberdade a qualquer custo

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