Um grupo de sem-terra ocupou, na última quinta-feira à noite, mais duas fazendas e um sítio do distrito de Tamarana (zona sul de Londrina). As 35 famílias que invadiram as fazendas Sagarana, Três Lagos e o sítio Shangri-lá vieram de outras áreas invadidas naquela região, informa o diretor estadual do Movimento dos Sem-Terra, Josmar Choptian.
Segundo ele, as terras foram invadidas por estarem irregulares. ‘‘Não se discute, nestes casos, a questão da produtividade. Estas terras têm problemas de grilagem (apropriação irregular)’’, afirma Choptian. ‘‘Toda a região se chamava antigamente Fundação e era uma área indígena.’’
O diretor diz que o MST exige agora que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) faça o assentamento definitivo das 35 famílias nas fazendas Sagarana e Três Lagos e também no sítio.
As três áreas invadidas na semana passada são vizinhas. No sítio Shangri-lá há cinco famílias; na fazenda Sagarana, 20; e na Três Lagos, 10 famílias de sem-terra. Ao todo são aproximadamente 200 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.
O filho do proprietário da fazenda Sagarana, Bernardo Alves Padilha, assegura que a família tem a posse legal da terra. Ele explica que a área, de 127 alqueires, pertencia ao Departamento Geográfico de Terras e Colonização e que foi vendida em 1956, em um leilão, para o avô dele, Rui Alves de Camargo. ‘‘É tudo legal. Tenho registrado em cartório’’, assegura José Alves Padilha, proprietário da Sagarana.
Bernardo e José Alves acusam os irmãos Santana - filhos do proprietário de um sítio ao lado da área ocupada e integrantes da invasão - de serem os organizadores da ocupação. ‘‘Este negócio de terra irregular é desculpa para cativar o povo’’, diz o filho, enquanto mostra a plantação de milho da fazenda e o pasto onde o gado de corte e de leite pastam. ‘‘A fazenda é produtiva. Eu e meu pai moramos e vivemos do que produzimos aqui.’’ Na opinião dele, a ocupação foi política e os irmãos Santana querem ampliar o sítio do pai.
Ontem, José Alves Padilha registrou queixa na polícia de Tamarana contra os sem-terra e entrou na Justiça com pedido de reintegração de posse. A proprietária da fazenda Três Lagos, Luci Henriques, registrou queixa na polícia mas, alegando falta de dinheiro para contratar um advogado, ainda não entrou na Justiça para pedir reintegração de posse.
Arnaldo Zeferino Santana, 54 anos, um dos irmãos acusados pela família Padilha de organizar a ocupação, diz que não é proprietário do sítio vizinho à área invadida. ‘‘O sítio é do meu pai’’, justifica. Ele garante que a ocupação de quinta-feira nada tem a ver com ‘‘briga de vizinho’’.
Luci Henriques garante que a situação da fazenda é legal e que está com a família dela há 40 anos. Segundo ela, a terra é herança do pai, o pioneiro Arlindo Henriques, fundador da fábrica de refrigerantes Bem Bom. Luci informa que mantém 140 cabeças de gado na fazenda, que ocupa área de 76 alqueires.
Os donos das fazendas Sagarana e Três Lagos e os líderes do MST não souberam informar o nome do dono do sítio Shangri-lá. O diretor do MST, Josmar Choptian, informa que hoje há cerca de 800 famílias de sem-terra acampadas na região de Londrina. Elas estão espalhadas por 15 imóveis, contando os três últimos invadidos na quinta-feira. As maiores ocupações, informa Choptian, estão nas fazendas Ponderoza e Apucanara Grande, em Ortigueira, com 400 famílias.
O assessor da superintendência do Incra no Paraná, Oswaldo Euclydes Aranha, diz que o Incra não sabia da ocupação de quinta-feira. Ele informa que, por enquanto, o instituto não vai tomar providências porque está preparando o assentamento nas fazendas Nossa Senhora de Fátima (308 hectares) e Rancho São José (561 hectares) em Tamarana; Apucarana Grande 1 (5.173 hectares), Apucarana Grande 2 (1.331 hectares) e Ponderoza (422 hectares), em Ortigueira. Todas essas fazendas já foram repassadas para o Incra. Até ontem à tarde, Aranha não sabia informar quantas famílias seriam assentadas.
Oswaldo Aranha explica que o Incra não pode distribuir cesta básica em áreas que estão sendo questionadas na Justiça pelo proprietário. Ele informa também que a permissão para que os sem-terra plantem deve partir do proprietário da área ocupada.

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