Região tem 1 suicídio a cada 9 dias
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terça-feira, 17 de março de 1998
Lúcio Horta 
Mário CésarCasos difíceisO médico e chefe do IML, Antônio Carlos de Queiroz: Quem tenta se matar não é visto como doenteO médico e psicoterapeuta Antônio Carlos de Queiroz, chefe do Instituto Médico Legal (IML) de Londrina, disse ontem que não existe na Cidade um trabalho integrado de prevenção de suicídios. No máximo, ele diz, são encontrados serviços isolados, como o Centro de Valorização à Vida (CVV), que funciona com muitas dificuldades e à base de trabalho voluntário.
O alerta de Antônio Queiroz foi feito ontem à noite durante a palestra de abertura da 1ªSemana de Valorização da Vida e Prevenção do Suicídio em Londrina. O evento prossegue até quinta-feira no Sesc da Fernando de Noronha (área central de Londrina). A promoção é do CVV em conjunto com Sesc, Associação Médica e Rotary Londrina Ouro Verde.
Durante muito tempo, Queiroz trabalhou como médico plantonista em prontos-socorros e atendeu muitos casos de tentativas de suicídio. A gente sabe que pelo menos em 50% dos suicídios a pessoa, em algum momento da vida, falou que ia se matar. Principalmente para médicos. E a gente percebe também que a pessoa não é encaminhada, não recebe tratamento adequado, ele destaca.
Queiroz diz ter visto, inclusive, casos em que a mesma pessoa tenta mais de uma vez o suicídio. Num PS, a atitude em geral é de desprezo: o indivíduo é hostilizado e não é visto como um doente, critica o chefe do IML. O médico lembra que, estatisticamente, para cada suicídio praticado há pelo menos outras 10 tentativas frustradas. E muitos casos que eram tentativas acabaram virando, depois, suicídio mesmo, afirma.
Queiroz acredita que o suicídio deve ser tratado como um caso de saúde pública, e não fato isolado. Falta, na opinião dele, um intenso trabalho de prevenção, envolvendo toda a sociedade, e em especial profissionais da área de saúde.
O médico aponta também que os estudos já desenvolvidos mostram que normalmente as vítimas potenciais são pessoas que têm ou tiveram algum tipo de perda drástica, como por exemplo a morte de alguma pessoa muito querida, perda econômica, de status social, de saúde etc. Essa pessoa tem o instinto de conservação alterado e deve ser vista com atenção. Isso sem falar em doentes de depressão ou esquizofrenia.
Não existem estimativas oficiais, mas em geral o Brasil apresenta números de suicídios muito menores do que os Estados Unidos ou países da Europa Oriental e Ásia. Queiroz afirma que nos últimos 26 meses - de janeiro de 96 até fevereiro de 98 - o IML tem feito um levantamento sobre os casos de suicídio na região atendida pelo instituto, que abrange 21 municípios e uma população de aproximadamente 1 milhão de pessoas. Foram identificados, neste período, 87 casos, o que representa 4 suicídios para cada 100 mil habitantes por ano. Ou então, um caso a cada nove dias. Na América do Norte, esse número sobe para 12 casos por 100 mil habitantes; e, na Europa Oriental e Japão, por exemplo, aproximadamente 25 casos.
Mas nem por isso o número que temos aqui pode ser considerado desprezível, destaca o médico. Queiroz acrescenta ainda que, ao contrário do que acontece no Primeiro Mundo, onde suicidas em geral têm mais de 45 anos, na região de Londrina 50% das vítimas estão na faixa entre 20 e 39 anos. Ele lembra que tem aumentado muito o número de suicídios na adolescência, tanto nos países desenvolvidos quanto no Brasil. Hoje, o suicídio está entre as três causas de morte entre os jovens.
Hoje, às 19h30, a psiquiatra Sandra Vargas vai coordenar a oficina Qualidade de vida e preservação da saúde. Amanhã a Semana termina com duas palestras: Depressão - O que é isso?, com a psicóloga Mara Marcondes; e Tratamentos Alternativos da Depressão, com o psicoterapeuta Ramiro Lopes Pereira. Mais informações podem ser obtidas pelo fone (043) 324.4949.


