Curitiba - As escolas começam o ano com um novo desafio nas aulas de português: adaptar os alunos às regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que entrou em vigor no último dia 1º. Nas salas de aula, o assunto já está sendo trabalhado com os alunos neste ano letivo, mas ainda como introdução para a utilização definitiva, prevista para o final de 2012.
Na rede estadual de ensino, a preparação começou há dois anos. Entre maio de 2007 e setembro do ano passado, cerca de nove mil professores de Língua Portuguesa de todos os 399 municípios paranaenses participaram de uma capacitação sobre as novas regras ortográficas por meio do Programa de Formação Continuada. Foram apresentadas as mudanças na língua e estratégias para abordar em sala de aula os novos conteúdos, juntamente com as definições que gradativamente deixam de ser utilizadas. O material didático da disciplina deste ano ainda apresenta as regras antigas e será atualizado a partir de 2010.
Nas séries iniciais, a orientação aos professores é trabalhar os conteúdos mais simples com os alunos, para nas séries avançadas o assunto ser aprofundado. Antes das normas entrarem em vigor, os alunos já mostravam interesse no assunto, principalmente os estudantes do Ensino Médio. ''Eles (os estudantes) já comentavam, tinham dúvidas em relação ao vestibular'', afirma a técnica pedagógica do Departamento de Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação, Keila Lima. De acordo com Keila, não haverá nenhuma dificuldade no ensino das novas regras ortográficas, pois os professores já sabem quais são as modificações. ''A gente trata a língua como algo vivo, que precisa ser adaptado. No Brasil as mudanças são mínimas, é 0,5% da escrita'', explica.
As modificações são estudadas pelas profissionais do serviço de Telegramática desde 1990, quando começaram as discussões sobre unificação da língua. Com o Acordo Ortográfico publicado em 1990 nas mãos e uma pasta com diversas matérias publicadas sobre o assunto em 19 anos, elas perceberam que a procura por informações aumentou a partir da metade de 2007, quando as editoras preparavam materiais como livros didáticos e dicionários. De setembro a dezembro do ano passado, os atendimentos aumentaram em 20%, a profissionais como jornalistas, publicitários, secretárias e advogados.
Porém, a preparação e o aparato de mais de cinco livros utilizado pelas atendentes não evitam que alguns usuários do serviço desliguem o telefone frustrados. A coordenadora do Telegramática, Beatriz Castro Cruz, afirma que alguns pontos do acordo ainda estão obscuros e geram controvérsias sobre a aplicação correta. Entre os pontos mais polêmicos estão a utilização do hífen ''em certos compostos em que se perdeu, em certa medida, a noção de composição''. ''Está muito genérico'', analisa.
Estas dúvidas só serão esclarecidas com a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (ABL). ''O hífen com prefíxos está mais fácil, sempre junta, separa quando for a mesma vogal e dobra quando for r e s, e o fim do uso do trema'', explica. São comuns os casos em que as dúvidas são referentes à pronúncia das palavras ou ainda o fim do uso da crase, o que não sofreu nenhuma modificação.
Beatriz aponta ainda as manifestações contrárias ao acordo de escritores e da população, principalmente em Portugal, onde as modificações serão maiores. ''Mexeu com o nacionalismo deles. Em Portugual, 1,6% das palavras serão modificadas''. Mesmo com as dúvidas e polêmicas, Beatriz analisa o acordo como positivas, pois estimulam uma reflexão sobre a língua. ''Já se passaram 18 anos e ninguém teve força política para mexer (nas mudanças), que adianta reclamar agora?'', afirma.

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