Reflexões no calçadão
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de janeiro de 2003
Sid Sauer<br> Equipe da Folha 
Campo Mourão Como fazia todas as manhãs, Valdomiro estava sentado num desses bancos do calçadão, no centro de Campo Mourão, lendo os classificados do jornal. Não queria comprar nada, mas, como costuma explicar aos amigos, gostava de ficar ''por dentro do mercado''. A atenta leitura nem o fez perceber que o trânsito fora impedido logo a sua frente, mas foi interrompida pelo barulho de uma serra elétrica.
Valdomiro pulou de susto. Parte do jornal foi ao chão. O caderno de cultura se abriu e começou a ser levado pela brisa que refrescava aquela manhã mourãoense. Ele correu, pegou o jornal e o arrumou com dificuldades. Metódico, Valdomiro tinha sempre que deixar o jornal encadernado na mesma ordem que pegava do jornaleiro. Superstição? ''Coisa de velho'', diziam os netos. ''Organização. E olha o respeito!'', corrigia logo.
Ainda de pé, ajeitando o caderno de economia, que insistia em ficar com uma ponta ''pra fora'', Valdomiro fixou o olhar para a origem do barulho. Era um funcionário da prefeitura, que serrava o pé do portal sobre a avenida colocado para abrigar os enfeites natalinos. Fim das festas, fim dos enfeites. Foi somente ao avistar a cena que ele começou a se dar conta que mais um ano tinha acabado. ''Meu Deus!'', exclamou em pensamento.
O aposentado voltou a se sentar no banco e enquanto olhava para as fagulhas produzidas pelo corte da serra, começou a lembrar do que havia ocorrido ao longo de 2002 em Campo Mourão. A nova Santa Casa foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Depois de 12 anos de obras e paralisações muitas paralisações! o hospital havia começo a funcionar. Ainda na ''meia boca'', mas estava funcionando.
Valdomiro lembrou também do anel viário, concluído mais de 20 anos depois de ser projetado, e do fim do mau cheiroso lixão da Vila Guarujá. Também veio à sua mente a volta do futebol profissional na cidade. Na terceira divisão, é verdade. Mas nada que se compare ao título brasileiro do seu Santos. ''Que penta, que nada!'', murmurou baixinho. Valdomiro se levantou e foi embora com um sorriso nos olhos. Pensando no bi em 2003...


