Londrina

Milton DóriaCalmariaCidade perdeu parte da população com a ida dos dekasseguis para o Japão e ficou vaziaO constante movimento de japoneses e descendentes que deixam o Brasil para trabalhar no Japão fez uma cidade do Norte do Paraná perder uma de suas principais características. Assaí (36 quilômetros a leste de Londrina), outrora reconhecida como ponto de predominância de famílias de origem japonesa, hoje apresenta em suas ruas centrais uma população formada por pessoas de etnias variadas, com prevalência dos rostos com feições ocidentais.
Ainda são visíveis nas fachadas dos estabelecimentos comerciais os traços da forte participação dos nipo-brasileiros na formação da cidade. Tanaka, Shigueoka e tantos outros sobrenomes de imigrantes japoneses denominam pequenas mercearias, bares, lojas e bazares. Mas nem sempre quem está atrás do balcão é o velho imigrante de olhos puxados e pele amarelada.
Também conhecida no passado como a ‘‘Capital do Algodão’’, na época em que as lavouras tomavam a maioria dos espaços rurais e as empresas de beneficiamento criavam um clima de eldorado na zona urbana, Assaí hoje em dia costuma ser uma cidade de pouco movimento, mesmo em dias de trabalho. A rotina dos habitantes é parecida com a de moradores de inúmeras outras localidades da região: o comerciante abre a porta do estabelecimento e o vendedor tenta vender para um público escasso.
O maior fluxo de pessoas é observado no intervalo do almoço e no encerramento do expediente de trabalho, já no final da tarde. Se há cerca de 20 anos, quando foi aberto o mercado de trabalho no Japão para os dekasseguis (brasileiros que emigram para o Japão em busca de trabalho), o perfil da multidão era de muitos japoneses e descendentes para poucos rostos com traços ocidentais, hoje ocorre o contrário: Silva, Oliveira e Ferreira são a maioria.
A cidade, entretanto, nem teria razão de se lamentar caso a partida dos dekasseguis estivesse afetando somente as características das feições das pessoas. Há um problema muito mais grave que afeta diretamente o desenvolvimento do lugar. Os resultados econômicos da ida dos trabalhadores nipo-brasileiros ao Japão deixam a desejar, embora alguns líderes da comunidade apregoem vantagens.
Milton DóriaAntônio Ricardo
Machado de Lima:
‘‘Dekasseguis voltam
sem dinheiro’’
‘‘De início, o pessoal investiu muito aqui, em construção civil, terras, telefone. Alguns poucos retornaram do Japão e abriram negócios. Ultimamente, o pessoal tem voltado sem dinheiro. Os jovens, principalmente, gastam tudo o que ganham lá mesmo no Japão’’, diz o chefe de gabinete da prefeitura, Antônio Ricardo Machado de Lima.
O comportamento dos dekasseguis que retornam para Assaí também causa preocupação, segundo o chefe de gabinete. ‘‘Eles voltam para a cidade, ficam uns três meses e retornam para o Japão’’. Machado acredita que uma das causas das idas e vindas dos nipo-brasileiros seja o pouco dinheiro que eles têm conseguido trazer. Outra explicação estaria ligada aos baixos salários que os dekasseguis conseguiriam no Brasil, caso permanecessem no país e encontrassem vagas no mercado de trabalho.
‘‘Os dekasseguis estão simplesmente vivendo a vida. Aqui se torna uma espécie de férias prolongadas para eles. Os dekasseguis viraram uma espécie de safristas. Só os mais velhos, que são casados e têm filhos, fazem um certo planejamento’’, afirma Machado. Ele diz, também, que muitos nipo-brasileiros de Assaí optaram pelo trabalho no Japão por causa de dívidas contraídas na atividade que desenvolviam, principalmente no campo.
Assaí tem cerca de 20 mil habitantes, segundo informações da prefeitura, dos quais aproximadamente 15% integram a comunidade japonesa. Apesar dos nipo-brasileiros terem iniciado a emigração para o Japão por volta de 1985, não há números oficiais sobre quantos deles estariam atualmente trabalhando no outro lado do mundo. Mas a estimativa da chefia de gabinete da prefeitura é que são cerca de 600 pessoas atualmente na condição de dekasseguis.
A agricultura participa com 60% na economia do município. O setor de comércio e serviços entra com 30%, enquanto a indústria aparece com tímidos 10%. ‘‘Se a agricultura parar, o município pára’’, diz Machado. Apesar da comunidade nipo-brasileira estar em desvantagem em número, ele informa que é ela que tem o poder econômico nas mãos. A maioria dos demais 85% da população é de baixo poder aquisitivo e mora na zona urbana. A proporção é de 25% no campo e 75% na cidade. E mesmo no meio urbano, 60% dos estabelecimento comerciais de Assaí pertencem a japoneses e descendentes.

mockup