Londrina - Contas feitas, orçamento testado, decisão tomada. Tirar o filho da escola pública e matriculá-lo na rede privada de ensino foi uma resolução determinada após meses de pesquisa por parte dos assistentes contábeis Adriana e Everson Sofiati. O objetivo - oferecer um ensino de maior qualidade para Iago, de 10 anos – justificava um sacrifício financeiro aplicado à rotina da família de quatro pessoas. A mudança foi feita com atenção redobrada para notas, tarefas e adaptação à nova turma. O estudante agora faz parte de uma rede de ensino cujas exigências são diferentes do universo que ele deixou. Segundo dados do Censo Escolar, de 2004 a 2014, a rede pública teve redução de 11% no número de alunos da educação infantil e ensinos fundamental e médio regulares no Paraná. Nas escolas particulares, foi registrado o contrário. A rede contabilizou 21% a mais de matrículas no mesmo período.
Na ponta do lápis, a conta é a seguinte: as escolas públicas – municipais e estaduais - deixaram de ter 249.820 alunos de 2004 a 2014. Já as particulares, tiveram um incremento de 62.922 no total de matrículas no Estado. Somando as salas de aula das duas redes, foram registrados no ano passado 7% a menos de matriculados em escolas do Paraná do que o verificado em 2004. De 2,498 milhões de estudantes, o Estado passou a contar com 2,311 milhões de alunos na educação básica, considerando apenas matriculados no ensino regular da educação infantil e ensinos fundamental e médio.
Com a família de Iago, o que pesou na migração da rede pública para a privada foi a estrutura e metodologia que cada estabelecimento é capaz de oferecer. "Ele estudava numa escola municipal que chovia dentro. Sempre acompanhamos o rendimento dele e notamos que não havia cobrança por parte dos professores. Chegamos a um ponto que não deu mais para segurar na pública", diz a mãe. Ela e o esposo já pagavam escola para a filha mais nova, Beatriz, de 3 anos. "Financeiramente, a mudança é difícil, mas queremos que os dois se preparem para o vestibular e o mercado de trabalho", enfatiza Adriana.
Quem lida com a educação no dia a dia aponta que a motivação para colocar em prática este tipo de mudança pode, também, ir além da melhoria da renda das famílias brasileiras na última década. "Os pais veem que esta ainda é a melhor forma de ascensão social e econômica, entendem que é um bom investimento. Quando não conseguem colocar os filhos numa boa escola pública, os levam para a rede particular", analisa o presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe-PR), Jacir Venturi.
Ele assinala que, ao mesmo tempo, houve expansão de vagas e unidades na rede privada. "Tivemos realmente uma década que nos beneficiou bastante, mas não temos ilusões. Em 2015 já sentimos o número de matrículas estacionando. Nunca a classe média esteve tão endividada como agora", pondera.
Na opinião da coordenadora-geral do Movimento Todos pela Educação, Alejandra Veraz Melasco, realmente há uma percepção na população de que a escola privada é melhor que a pública, devido a fatores como condições físicas de espaço e, aparentemente, maior disciplina no comportamento dos alunos. "Na medida em que o nível socioeconômico das famílias aumenta, e com ele as possibilidades de financiar a educação privada para os seus filhos, as famílias parecem fazer esta migração", observa ela, ao fazer, contudo, um contraponto. "As avaliações nacionais, embora não permitam ter um diagnóstico da qualidade em cada estabelecimento, por ser feito por amostragem nas particulares, têm mostrado uma queda no desempenho geral da rede particular, o que deve acender um alerta para as famílias que querem optar pela educação privada", salienta.

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