Você beberia da água da Sanepar, cuja rede de abastecimento percorre valetas de esgoto em diversos bairros de uma cidade? Cerca de dez mil pessoas que vivem na periferia de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, são abastecidos desta maneira. Por quatro vilas da cidade - Vila Amélia, Vila Rosi, Planta Costa e Pio XII -, a rede de água está dentro de valetas onde deságua o esgoto da cidade. Por causa disso, os moradores da região estão sofrendo com diversos males - diarréia, dor de estômago, doenças de pele. Mas, para o gerente de manutenção de Pinhais, Renato Veloso Queiroz, não existe nenhuma correlação entre o esgoto e as doenças das pessoas.
Marcelo AlmeidaNilda Santos, atendente da cantina de uma escola: água barrenta, com pedaços de unha e cabeloA contaminação da rede de abastecimento acontece durante a manutenção das valetas, quando retro-escavadeiras da prefeitura fazem a limpeza. ‘‘As máquinas acabam rompendo os canos que abastecem as casas, permitindo a entrada de esgoto’’, denuncia o vereador Luiz Goulart Alves (PT), vice-presidente da Câmara Municipal. Ele conta que, para restabelecer o abastecimento, técnicos da Sanepar realizam a emenda da canalização em meio ao esgoto, liberando água em seguida.
Durante 15 dias, a Escola Municipal Chafic Elmak, na Vila Amélia, vinha sendo abastecida com água barrenta, recheada com pedaços de unha e cabelo. ‘‘Tivemos que interditar a rede de água, optando pelo abastecimento com caminhões pipas, tamanha era a sujeira’’, conta a diretora Silvina Aparecida de Oliveira. Ela atribui a contaminação aos problemas na distribuição, resolvida há quatro dias. ‘‘Ainda bem, porque era meio nojenta a sujeira da água’’, comenta a atendente da cantina da escola, Nilda Santos.
Porém, o gerente da Sanepar, Renato Veloso Queiroz, afirma que o trabalho de descontaminação foi feito por iniciativa da empresa. Queiroz ainda alega que não houve contaminação na água. Ele afirma que foi feita uma análise na água que sai dos canos para avaliar a qualidade. ‘‘Constatou-se que era saudável’’, garante Queiroz. O gerente afirma que o estudo não apontou cloriforme total ou fecal, mantendo sempre cloro residual. ‘‘Este levantamento foi feito em diversos pontos do bairro e em todos a qualidade era boa’’, diz, acrescentando que vem se mantendo assim por algum tempo.
Porém, para a costureira Clarice Ferreira de Lima, que vive a duas quadras da escola, o desabastecimento é frequente, fazendo com que as águas sempre sejam barrentas. ‘‘Minha família ficou com disenteria, e baixou hospital’’, comenta. Ao todo, nove pessoas passaram mal. Também ficaram doentes as famílias de suas duas filhas, que vivem em outro pontos do bairro.
Aparecida Gonçalves, atendente de cantina do Colégio Estadual Otília Homero da Silva, diz que problemas com a água também são frequentes na escola em que trabalha. ‘‘Moro perto da escola e tenho medo de pegar doenças, por isso limpo sempre a minha caixa d’água, quando há interrupção’’, diz.
Para o gerente da Sanepar, a única forma de resolver o problema da contaminação da água é com a canalização do esgoto que corre nas valetas, que seriam de responsabilidade da prefeitura. Segundo ele, o local escolhido para passar a rede de abastecimento está correto, porque é o único espaço existente no local. ‘‘Em Curitiba, a rede de esgoto corre em paralelo com a de abastecimento, por baixo da terra. Aqui, por ser um município pobre, o fornecimento de água chegou antes do esgoto’’, justifica, acrescentando que a partir do próximo ano este trabalho deverá ser realizado pelo governo estadual, por meio do ParanáSan.

mockup