Recuperando corpo e alma
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Há muito tempo, quando a bomba atômica destruiu Hiroshima e Nagasaki, dando fim àquela que foi considerada a segunda grande guerra mundial, uma japonesinha ensinou o significado da esperança aos compatriotas que perderam familiares e amigos.
Conta a lenda que Sadoku tinha apenas dois anos quando a bomba explodiu. Mas foi só aos 12 que ela descobriu-se doente - mais uma vítima inocente da radiação. E para aplacar a dor da morte que chegava, ela lembrou-se de uma tradição antiga dos japoneses: a arte de dar vida aos sentimentos fazendo dobraduras de papel - o origami.
A meta era dobrar mil pássaros de origami para que o desejo de paz mundial se concretizasse. Faltavam apenas 36 pássaros quando, por um capricho do destino, Sadoku morreu, vítima de leucemia. Tocados, os amigos da garota resolveram se unir para terminar a tarefa. Além dos mil origamis, Sadoku ganhou um memorial e o coração do mundo inteiro.
Pois foi seguindo o exemplo da japonesinha que lutou até o fim antes de sucumbir às atrocidades da guerra, que um grupo de deficientes físicos de Londrina aceitou o desafio de produzir mil pássaros de origami para pedir graças para o ano que vem chegando.
Segundo a psicóloga Sonia Sella, do Instituto de Medicina Física (Imef), que atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), participaram do programa de reabilitação global 250 pacientes e cuidadores. ''O projeto começou em setembro, com a realização da I Semana de Talentos, realizada pelo Instituto em comemoração ao Dia do Deficiente Físico'', recorda.
Além de origami, os pacientes aprenderam arte em argila, pintura em tela, desenho e ikebana. ''Cada um produziu conforme a sua possibilidade. No caso dos origamis, alguns fizeram apenas as primeiras dobras enquanto outros terminaram o pássaro inteiro'', diz Sonia.
Para a psicóloga Lydia Akemi Onesti, que acompanhou de perto as atividades, o projeto serviu para resgatar a autonomia, além de melhorar a auto-estima e o estado geral dos pacientes e possibilitar novas amizades. ''A participação e solidariedade dos cuidadores e familiares foram fundamentais para o sucesso do desafio.''
Além dos mil pássaros que foram pendurados numa árvore da Praça Aleijadinho, na Região Central de Londrina, os pacientes produziram outros origamis em casa, ''para reforçar os desejos de Ano Novo'', conta Sonia Sella. Segundo ela, cada fio que segura os origamis à árvore carrega um pedido individual. ''O desejo mais interessante foi de um paciente que pediu mais água para o mundo''.
A vendedora ambulante Isabel Rosa da Silva Nascimento sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em abril do ano passado, em decorrência da pressão muito alta. Há quatro meses ela iniciou o tratamento de reabilitação no Imef e desde então já consegue comer sozinha e dar os primeiros passos sem uso da cadeira de rodas. ''Depois de participar do projeto, tudo mudou. Passei a dar mais valor à vida. Isso é muito importante porque o deficiente costuma se achar inútil'', declara Isabel.
Ela relata que mora com o marido e os dois filhos em uma casa alugada no Conjunto Chefe Newton Guimarães (Zona Norte). Antes de sofrer o AVC, ela sustentava a família com a venda de lingeries e como professora de cursos de corte e costura. Hoje, sem a pensão por invalidez e sem a aposentadoria do marido, que foram canceladas, ela vende bombons no Terminal Urbano de Transporte Coletivo para sobreviver.
''Meu pedido é por saúde e prosperidade na vida material porque a vida de pobre é muito sofrida'', revela Isabel. Para ela, o desafio dos origamis deu resultado mais rápido do que esperava. ''Espero voltar a ativa muito em breve''.


