'Recuperadoras' enfrentam crise
Recuperadoras enfrentam crise
A crise cambial brasileira, que fez o valor do dólar explodir em relação ao real, está levando à falência um negócio que prosperou nos últimos anos na fronteira entre Brasil e Paraguai: a recuperação no exterior de veículos roubados no País. Foz do Iguaçu já chegou a ter dez empresas nessa atividade. Hoje, apenas três ou quatro resistem, e vêem o movimento cair a cada dia.
Na prática, essas empresas são pagas por seguradoras brasileiras para localizar veículos de seus clientes que foram levados para o exterior e trazê-los de volta ao Brasil. Os métodos usados nessa tarefa nem sempre são legais. A Folha apurou que as empresas de recuperação costumam subornar autoridades e até comprar o veículo da quadrilha que o recebeu no Paraguai.
Para seguir os meios legais, as recuperadoras deveriam pegar uma procuração do dono do carro ou da seguradora lesada, registrar essa procuração e os documentos do veículo em um consulado brasileiro no país onde ele está, providenciar a tradução oficial desses papéis e, só então, pedir à Justiça local ordem para a apreensão do bem.
Pela Justiça, quando se consegue, leva-se 90 dias, em média. Comprando, é imediato, justifica o dono de uma empresa de recuperação, que prefere não ser identificado. A culpa desse recurso à ilegalidade, segundo as empresas, é dos próprios governos, principlamente o paraguaio.
O Paraguai não estaria respeitando o Acordo para a Restituição de Veículos Roubados ou Furtados, assinado com o Brasil em 1º de setembro de 1994. Esse acordo prevê que, cumpridas as exigências descritas acima, o carro, depois de apreendido pela polícia, seria devolvido ao dono em um prazo de dois dias. Mas, na prática, esse prazo acaba sendo quase 50 vezes maior e o pagamento de propina a autoridades é inevitável.
Além da corrupção e da burocracia, o que está sufocando o negócio da recuperação de veículos no exterior é a redução dos valores pagos pelas seguradoras brasileiras. Até o final do ano passado, elas pagavam o equivalente a 40% do valor do veículo roubado, o dobro do custo de recuperação (20%).
Hoje, principalmente devido à desvalorização do real, o pagamento repassado caiu pela metade em dólares (única moeda aceita no mercado internacional de veículos). A Folha apurou que, desde janeiro, o movimento nas recuperadoras de veículos da fronteira já caiu 90%. (V.D.)





