RECORRENTE - Não me toque
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
O abuso no ônibus, atitude em que um homem molesta sexualmente uma mulher dentro do transporte coletivo, é um problema constante. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Avon, em parceria com o Data Popular, com 2.046 jovens de 16 a 24 anos, 31% das entrevistadas afirmaram terem sido assediadas em transporte público. A pesquisa foi realizada em dezembro de 2014 nas cinco regiões do país. Em Londrina o quadro não é diferente. A facilidade com que a reportagem conseguiu obter relatos impressiona. Em menos de 30 minutos no Terminal Central foram mais de dez pessoas que deram detalhes sobre os abusos dentro do ônibus.
A superlotação dos ônibus é apontada como um dos maiores facilitadores para a atuação desses molestadores. Elas destacam que, a cada freada, desconhecidos se aproveitam para tocar seus corpos, como relata uma estudante de 19 anos. "Deveriam colocar mais ônibus, porque quando pego o ônibus lotado, tem muito homem que fica encoxando na gente."
Os relatos que a reportagem coletou indicam que os molestadores atuam em diversas linhas em várias regiões. Uma das mulheres revelou ter sido estuprada dentro de um ônibus, mas não denunciou porque foi ameaçada.
Nem mesmo quem amamenta está livre de situações como essa. Uma adolescente ouvida pela reportagem presenciou um molestador se esfregando em uma mulher que estava amamentando. "Ele se esfregava nela e chamei a sua atenção. Pedi para que ele trocasse de lugar comigo para que ele parasse com aquilo", contou.
Uma passageira de 36 anos relata que um homem de meia idade entrou no ônibus e encostou em uma que estava logo à sua frente. "Assim que ela desceu, a cada freada ele se aproximava mais e eu ia me afastando. Quando ele percebeu que eu fugia, foi atrás de outra mulher", relatou.
Já uma estudante universitária de 21 anos contou que, a caminho da Universidade Estadual de Londrina, um homem ficou se esfregando nela várias vezes. "Tentei ser educada e pedi para trocar de lugar. Só que ele desceu no mesmo ponto que eu e começou a me seguir. Procurei um lugar na UEL para fugir dele."
MACHISMO
A socióloga Rosana Schwartz, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), afirma que esse tipo de comportamento decorre de uma construção histórica do machismo em uma sociedade patriarcal fechada. "A utilização da mulher como objeto é forte em nosso País. A mulher foi vista como objeto sexual por muito tempo."
"Os homens acham que têm direitos de cometer abusos porque ela não está com a roupa adequada", apontou a professora. Segundo ela, as próprias mães, que são as primeiras educadoras que as crianças têm, passam esse machismo para seus filhos. "Esse tipo de valor também é repassado aos alunos na escola. É preciso desconstruir essa visão histórica. Estudos de gênero e discussões sobre essas questões são fundamentais nos cursos desde as primeiras letras até a universidade", recomendou.
A curto prazo a socióloga aponta que fazer a denúncia de algo ocorrido dentro de ônibus, no metrô ou na rua é mais complicado que o assédio em uma empresa, por exemplo. "Muitas vezes, no espaço público não há como agir imediatamente. O melhor encaminhamento é procurar o cobrador e o motorista, pegar o número do ônibus, anotar o horário e fazer a queixa na polícia", orientou. "Se os motoristas e cobradores não tomarem providência, a pessoa deve procurar a ouvidoria ou o serviço de atendimento ao consumidor e relatar que isso está acontecendo", apontou.
A orientação também é a recomendada pelas empresas de transporte coletivo de Londrina e pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU). De acordo com a assessoria das empresas, é possível fazer a denúncia aos colaboradores (motoristas, cobradores e fiscais) e também pelo telefone 0800-4007020. Lembrando ainda que é essencial que a vítima vá até a polícia e faça um boletim de ocorrência.


