Reza a história que no ano de 580, em um santuário de Nossa Senhora na Itália, um artista pintava a imagem de Maria durante o dia, mas ela desaparecia à noite. Foi contratado um vigia para impedir que isso voltasse a ocorrer, mas uma noite ele acabou cedendo à insistência e deixou que uma mulher com um menino no colo entrasse. Diante da demora em sair da igreja, ele foi verificar e viu que os dois tinham sumido, mas a imagem da mulher e da criança estavam pintadas no santuário. O vigilante passou a gritar que era a Nossa Senhora de Achiropita (a – kirós – pita - não pintada por mãos humanas). Em Londrina há um devoto da santa que dedica seus dias a restabelecer a integridade de imagens danificadas. Seu nome é Alexandre Passarini, 40 anos, mas prefere ser chamado de Alexandre de Achiropita.
Ele contou que quando tinha apenas cinco anos desenhou a santa em uma tela, sem saber que ela existia. Depois de sofrer com uma doença de pele por 15 anos, dos 13 aos 28 anos, ele afirmou que foi curado após receber um santinho com a imagem da santa. A partir daí, relata, passou a sonhar com Nossa Senhora, que teria lhe ensinado as técnicas de restauro das imagens. Desde então, ele vem recuperando essas imagens sacras, sejam eles quadros, estátuas ou crucifixos.
Curiosamente, o mais recente trabalho envolve a recuperação de imagens ligada à umbanda, a do Pai João e da Mãe Maria, danificadas pelas pedradas de um homem que passou em frente à loja onde elas ficam. "Tem gente que não trabalha com imagens de outros credos. Eu não tenho preconceito. Sempre arrumei imagens para o João, dono da loja Tupinambá", ressaltou. A cabeça da estátua foi destroçada em 50 pequenos pedaços e os braços estavam partidos em pedaços maiores. Ele calcula que o trabalho de restauração será feito em 30 dias.
Passarini mora em uma casa na Vila Brasil (área central), onde estão espalhadas mais de 500 peças de imagens sacras no chão e sobre as cômodas, prateleiras, armários, camas e mesas. Cerca de 50 delas estão em processo de recuperação, mas o espaço já está bastante limitado para o trabalho. "Eu precisaria de uma outra casa ou de um galpão para poder fazer esse serviço", confidenciou.

Instrumento
Para reconstituir peças de gesso, o trabalho é minucioso e leva de 30 a 60 dias. Tal qual um quebra-cabeça, as peças precisavam ser reconstituídas pacientemente para que tudo se encaixe e receba os reparos. Depois, a peça tem que secar. "Depende muito se o tempo está úmido, pois se secar só do lado de fora, na hora de lixar o gesso o trabalho pode ficar comprometido. Por esse motivo tenho que tirar a peça de dentro de casa e levá-la para tomar sol", relatou Alexandre de Achirupita.
Depois, a peça é lixada e começa o processo de pintura, feita com tintas a base de água. "As indústrias preferem tintas a base de óleo, mas elas descascam. Para pintar eu utilizo pincéis, mas para fazer alguns detalhes uso palitos de dente", revelou Alexandre, que não quer ser chamado de artista ou restaurador. "Sou apenas um instrumento de Nossa Senhora de Achirupita", declarou.
Ele cobra pelo restauro de peças de particulares, mas se o pedido for de uma igreja, o trabalho sai de graça. Para aqueles que descartam estátuas sacras danificadas ou quebradas, pede que façam a doação para ele. E citou o caso de um quadro achado em uma caçamba de lixo que foi totalmente recuperado.
O conhecimento dele acerca de cada imagem sacra também impressiona. Distingue cada um dos Reis Magos pelas suas vestimentas e pela tez. Ele observa que alguns fabricantes não tomam esse cuidado e pintam as vestimentas com as cores erradas. Seu maior sonho é conseguir dominar a técnica para retratar Nossa Senhora de Guadalupe, que teria a pele furta-cor. "Hoje ninguém domina isso", afirmou.

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