Reciclagem em debate
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de março de 2015
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Londrina Cerca de 200 cooperadas de reciclagem de Londrina e região participaram ontem do 1º Encontro das Mulheres Catadoras, organizado pelo Comitê Regional Norte Paranaense, em parceria com secretarias municipais de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Cultura. Durante o evento, organizado em uma casa de encontros religiosos na zona sul da cidade, elas assistiram a palestras, participaram de atividades culturais e debates.
A celebração das conquistas da categoria nas últimas décadas deu o tom do evento. A presidente da Coocepeve, de Londrina, Sandra Araújo Barros da Silva, pioneira na reciclagem na cidade, destacou a importância do encontro para a troca de experiências. Segundo ela, além das questões da profissão, os debates são produtivos para as mulheres conhecerem seus direitos. "Muitas delas chegam às cooperativas em avançado estágio de vulnerabilidade. Lá, elas passam a ter uma visão diferente, a tomar posição dentro de casa", contou.
O primeiro passo para a mudança, segundo Sandra, é a conquista da dignidade. "Hoje, salvo os raros casos de preconceito burro, a reciclagem não é mais marginalizada. E as mulheres, que passaram a ser chefes de muitas famílias, encontraram uma oportunidade digna de sustento", expôs.
Para muitas mulheres que participaram do encontro, o trabalho com reciclagem impulsionou mudanças de vida.
Vera Lúcia Evangelista da Silva, de 46 anos, trabalha há nove na atividade. Ela lembra do começo difícil, quando catava papelão pelas ruas e avalia as avanços ao longo dos anos. "Consegui me livrar do nojo, do desprezo que as pessoas sentiam de mim. Agora, tenho o reconhecimento pela importante função social e ecológica que exerço", destacou. Sozinha, Vera sustenta quatro filhos e quatro netos, com renda mensal na faixa de R$ 1,5 mil.
Há alguns anos, ela pediu a exclusão do Bolsa Família, mesmo com "parentes estudados" garantindo que ela tem direito ao benefício do governo federal. "Meu dinheiro eu quero ganhar com o meu suor. Só de pensar que estou tirando dinheiro de gente em situação pior que a minha, não acho justo." A trabalhadora não perde nenhuma atividade de capacitação. "Estou sempre me aperfeiçoando, pois procuro fazer o meu melhor para o serviço sair bem feito."
Claudete Freire da Silva, de 37 anos, não sente nem saudades dos tempos que trabalhava como doméstica. "Estou há 14 anos na reciclagem e, com os avanços que conseguimos agora, não deixaria a cooperativa para trabalhar em outros serviços que já fiz na vida", disse. Com a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, no próximo domingo, Claudete lembra que muitas das mulheres da reciclagem são pai e mãe dentro de casa. "Para o pai é fácil ir embora, já a mãe não abandona os filhos. Essa mulher que não tem medo do serviço braçal também merece homenagens", destacou.
Mas nem só de serviço pesado vivem as mulheres catadoras. Maria Aparecida Bassani da Cruz, de 57 anos, demonstrava habilidade na oficina de crochê realizada durante o evento. "Fazemos serviços pesados, sim, mas isso não é motivo de deixar a feminilidade de lado. O crochê, além de garantir uma renda extra, serve como uma terapia", recomendou. Ela elogiou a organização do encontro. "Assim como estou ensinando o crochê, também pude aprender muitas coisas com as colegas."
A representante do Comitê Paranaense, Verônica Cardoso, comemorou a grande adesão das cooperadas ao evento. Segundo ela, a organização destes eventos é importante porque "garante a promoção das mulheres catadoras e uma maior visibilidade para a situação das empresas de catadores da economia solidária". "Precisávamos deste encontro para trocar experiências e fortalecer a classe. Muitas catadoras desconhecem como acessar os direitos", alertou.
Além de cerca de 160 catadoras de Londrina, compareceram representantes de Arapongas, Ibaiti, Cornélio Procópio, Cambé, Wenceslau Braz, Nova Esperança, Campinas, Ourinhos e Lençóis Paulista, além do Movimento Nacional dos Catadores, Ministério Público do Paraná e outras instituições.


