A paralisação dos coletores de material reciclável de Londrina, apesar de ter durado apenas três dias (ver box), chamou a atenção da população e expôs a condição de sobrevivência quase miserável da categoria. A queda nos preços dos materiais reduziu em mais da metade a renda das famílias e muitos estão tendo dificuldade para colocar comida na mesa todos os dias.
A catadora Sueli da Silva Gonçalves é viúva, cuida sozinha de cinco filhos pequenos e sua última retirada na ONG ''Reciclando Oeste'' foi de R$ 80,00. O dinheiro foi insuficiente para manter a família que vive no Jardim João Turquino (Zona Oeste) e a fome só não bateu à sua porta porque recebe R$ 100,00 do Bolsa-Escola. ''Só está dando para pagar as contas de água e luz e mesmo assim têm que ser parceladas'', fala Sueli. Sueli tem o rosto machucado pelas horas diárias caminhando sob o sol e as mãos calejadas. ''A gente trabalha tanto, de segunda a sábado, e nesse mês estamos no risco de nem ter pagamento'', lamenta. Junto com a catadora trabalham outras sete pessoas que também dependem dos rendimentos da venda de material reciclável para manterem suas famílias.
Aroldo Costa é presidente da ONG ''Associação Sócio-Ambiental a Missão'', também da Zona Oeste. Ele trabalha com reciclagem desde 1997 e diz que nunca a situação foi tão ruim. ''O mês de março foi o pior que já tive'', reclama, apontando que conseguiu ganhar apenas R$ 123,00, mesmo trabalhando mais de 160 horas. Para piorar, o barracão no João Turquino foi incendiado.
Do outro lado da cidade, no Jardim Santa Fé (Zona Leste), a desesperança também toma conta do barracão onde trabalha há um ano a catadora Rosângela Gusmão de Oliveira, integrante da ONG ''Aracen'' junto com mais 14 coletores que atuam na área central. ''Gastamos R$ 500,00 só para manter a sede e nem isso está dando mais. A maioria é mulher casada que só tem essa renda para manter a família'', aponta.
E não são só os coletores que sofrem com a situação, pois a greve afeta toda a cadeia de produção. Na central de prensagem, o ''gerente faz tudo'' Jair Gonçalves Feltrin prefere nem pensar no futuro e vê com tristeza as máquinas paradas e o barracão sem nenhum trabalhador. Sem carteira assinada e com problemas de saúde, ainda tem que reservar mais da metade do salário de R$ 300,00 para pagar pensão alimentícia a uma filha. ''Isso é sagrado e hoje minha mãe aposentada é que me sustenta'', confessa. Há 21 anos sobrevivendo da reciclagem, ele lembra dos 16 anos que garimpou material no antigo lixão. ''Naquela época, a gente ganhava muito dinheiro. Agora, qual é a nossa garantia?'', pergunta.

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