Recicladores descobrem o teatro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de maio de 2004
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Durante todos os dias da semana passada, um grupo de 15 mulheres e dois rapazes que trabalha com reciclagem na Vila Marízia (Área Central de Londrina) teve sua rotina alterada. Em vez do trabalho mecânico de separar as caixas de leite das garrafas pet, o período das 14 às 17 horas foi dedicado a uma atividade diferente: ensaiar uma peça de teatro.
Mas não foi uma peça de teatro qualquer. Foi uma peça que falava das experiências de cada um e do dia-a-dia difícil de uma usina de reciclagem. É o chamado Teatro Testemunhal, que os integrantes da Organização Não Governamental (ONG) Grupo Esperança tiveram oportunidade de participar, dentro da programação do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Ontem, no início da noite, no próprio barracão onde trabalham, eles apresentaram a convidados e comunidade local a peça ''Lixo do Mundo'', resultado dos sete dias de oficina com a teatróloga e diretora chilena Jacqueline Roumeau. Além de alguns testemunhos pessoais, o espetáculo trouxe textos de Maria Fioreto e imagens gravadas durante duas manhãs de trabalho dos recicladores.
Jacqueline, que no Festival do ano passado montou uma peça dentro de uma favela e que nesta edição também levou as artes cênicas para a Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), explicou sua preferência por esta modalidade de teatro: ''Nosso objetivo é trabalhar a auto-estima das pessoas, resgatar sua dignidade e fazê-las acreditar que são capazes''.
Segundo a diretora, o resultado é sempre muito interessante. ''Nunca deixo de aprender'', revelou na última sexta-feira, empolgada com os resultados dos ensaios. Auxiliada pelos monitores Rosa das Dores e Davi Rosa, Jacqueline trouxe à cena situações rotineiras: ''Mão na mesa, pega o saco, puxa o saco, rasga o saco, pega a garrafa, mira e joga'', diziam, ritmadamente, a certa altura do espetáculo.
''Isso aqui faz a gente se distrair. E também é uma forma de tornar nosso trabalho mais conhecido'', disse Sonia Mara Lourenço, 24 anos, recicladora há quatro anos. Para Fernanda Jaqueline de Oliveira, 18 anos, na reciclagem desde os 15, participar da oficina foi uma forma de descobrir ''que a vida do artista também é difícil''. Fernanda nunca tinha tido uma experiência com teatro, nem mesmo na platéia.


