Londrina exibe com orgulho o status de município que conseguiu instituir a coleta seletiva de lixo em mais de 90% dos bairros, sinônimo de conquista ambiental e emprego. O que esse status esconde, entretanto, é a realidade que muitos recicladores conhecem: barracões com estrutura precária, falta de veículos para se locomover, maquinários parados e o ônus da informalidade - nenhum auxílio governamental em caso de doença ou acidente.
A organização não-governamental (ONG) Esperança, com sede na Vila Casoni (Zona Leste), é um microcosmo das dificuldades enfrentadas pelos recicladores. Há cerca de um mês, uma forte chuva fez se abrir uma cratera na parte superior do barracão da reciclagem, que comprometeu pilares e deixou muro e forro sob risco de cair. Dias depois, a Kombi usada para transportar recicladores e o lixo recolhido se envolveu num acidente de trânsito e teve perda total. O motorista sofreu apenas uma fratura.
Para a ONG que nasceu dos esforços de moradores pobres da Vila Marízia, incidentes como esses significam duros golpes numa rotina de trabalho já complicada. A presidente da ONG, Verônica Cardoso Costa, 31, conta que ainda faltam três prestações de R$ 267,00, dinheiro emprestado para adquirir a velha kombi. Sem chance de comprar outro veículo, os recicladores estão tendo de se locomover à pé pelos 16 bairros em que atuam. ''Além do peso do trabalho, há o risco de atravessarem a BR (369) com os carrinhos cheios. O serviço que era concluído em cinco horas, agora leva o dobro de tempo '', exaspera-se Verônica.
No barracão, a reportagem presenciou a chegada de José Veríssimo dos Santos, 55. O ex-vigia, que tem 69 quilos, vinha à pé do Jardim Pacaembu (Zona Norte) puxando quatro vezes o seu peso no carrinho abarrotado. Até há algumas semanas trabalhando na prensagem de materiais, Santos teve que ir para as ruas para ajudar a suprir a falta da kombi. ''Ainda tenho que dar graças a Deus de ter esse trabalho. Tenho que aguentar, porque se não pago minhas contas vou pro Seproc'', diz.
A presidente da Esperança considera um absurdo a prefeitura negar ajuda justamente àqueles que assumiram um trabalho que poderia ser do Município. ''A gente carrega 20 toneladas de lixo por dia, damos serviço para as pessoas, deixamos a cidade mais limpa, e eles não investem um centavo nas ONGs. Fica a pergunta: para onde está indo esse dinheiro que a prefeitura economiza com a coleta reciclável?'', coloca. A ONG Esperança emprega 15 pessoas, a maioria mulheres e moradores da Vila Marízia.
O presidente da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Gabriel Ribeiro Campos, argumenta que os problemas citados estão concentrados apenas na ONG Esperança, e diz que poderiam ser evitados caso a entidade fosse associada à Central de Prensagem e Vendas (Cepeve), que agrega 29 ONGs de reciclagem da cidade. ''A presidente da ONG, que já presidiu o Cepeve, optou por caminhar sozinha e com isso está perdendo. Estamos intermediando a obtenção de recursos para a reciclagem, mas sempre via Cepeve. A associação foi criada justamente para fortalecer as ONGs e ajudar nas dificuldades'', assinala.
Campos diz que a ONG Esperança, uma das primeiras do município, foi a que mais recebeu apoio da prefeitura, tendo ganho o terreno para o barracão e serviços de terraplanagem. O presidente da CMTU alega também que ofereceu uma kombi provisória para a ONG, mas que o veículo foi recusado. Quanto à máquina que está parada no barracão (leia mais nessa página), Campos afirma que seu funcionamento também depende da filiação da Esperança à Cepeve.

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