A recicladora Noêmia Gomes Carvalho ganhou vida nova aos 57 anos. Ela não mudou de casa, nem de profissão, muito menos de condição social. Mas ganhou o mais precioso dos bens: uma família que imaginava perdida. O presente veio em agosto deste ano, quando Noêmia descobriu que suas raízes ainda existem e, em poucos dias, pôde reencontrá-las. No dia 8 daquele mês ela embarcou para a pequena cidade de Cristalino, no Piauí, onde vivem a mãe e os irmãos que não via há 43 anos. Foi como nascer de novo. ''Agora eu sei onde eles estão e que minha família não são apenas minhas filhas e netos aqui em Londrina.''
Moradora da Vila Marízia (Área Central), Noêmia saiu da terra natal quando tinha 13 anos, para morar com uma família londrinense enquanto tratava de um problema de saúde. Aos 15 anos se casou e os acontecimentos que vieram depois como o nascimento das nove filhas se encarregaram de mantê-la por aqui. Foi doméstica, bóia-fria, vendedora de isca na beira da rodovia, catadora de papel. Sempre lutando pela sobrevivência, nunca conseguiu juntar dinheiro para ir atrás do seu sonho.
A viagem de um dia e duas noites de ônibus para o interior do Piauí foi possível graças à ajuda dos membros da 1º Igreja Presbiteriana Independente (IPI). Noêmia voltou tão animada que agora já pensa em juntar dinheiro para um novo passeio à terra natal. ''Achava que era mais caro, mas vi que se eu juntar um pouquinho todo mês, depois de um ano já dá para ir. É o que eu vou começar a fazer'', promete.
A recicladora diz que não esperava ser tão bem recebida na terra que deixou para trás. ''Estavam meus nove irmãos, com as mulheres, filhos, netos, todos me esperando. Foi maravilhoso. Na semana que passei lá nem podia sair muito de casa, porque todo dia tinha gente me visitando. Acho que Cristalino inteira foi me ver. Todos queriam ver o jornal com a matéria sobre a minha história'', conta, referindo-se à edição da Folha do dia 7 de agosto, que relatou a expectativa de Noêmia com a viagem.
Ela confessa que enquanto estava no Piauí sentiu vontade de morar perto dos familiares. Eles até pediram para que ela ficasse. Mas o amor de mãe foi mais forte. ''Não conseguiria ficar longe das minhas filhas e netos, não quero que eles passem o que eu passei. Enquanto eu estava lá ligava todos os dias.''
Por falar em telefone, a única preocupação de Noêmia, agora que reatou os laços familiares, é com a conta no final do mês: ''Falo toda semana com minha mãe e com meus irmãos. Mas no caso deles, eu fico esperando que me liguem.''

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