As palavras escritas a caneta e ilegíveis nas receitas médicas são rotineiras. Elas causam confusões e reclamações dos farmacêuticos e balconistas de drogarias em Londrina, que dizem correr o risco de trocar os remédios prescritos e agravar ainda mais o estado de saúde dos pacientes. ‘‘Estes garranchos dos médicos são um absurdo. Eles podem trazer consequências graves para os doentes, como a demora na medicação e a piora da doença’’, comenta um farmacêutico que prefere não se identificar, por medo de retaliações dos médicos.
Segundo ele, alguns balconistas podem tentar adivinhar o que está escrito nas receitas com letras ilegíveis e vender remédios errados aos doentes. ‘‘As receitas devem ser escritas em computador, datilografadas, ou pelo menos em letras de forma, quando feitas a caneta. Quando isto não ocorre, a confusão é grande’’, ressalta o farmacêutico, lembrando que o contato com os médicos nem sempre é fácil. ‘‘Quando telefonamos para os consultórios para tentar decifrar as receitas, as secretárias alegam que os médicos estão em consulta ou viajando. Quase sempre, não atendem ao telefone.’’
O farmacêutico diz que os pacientes acabam ficando chateados com o atendimento das drograrias, ao invés de reclamarem dos médicos. ‘‘Se não encontramos os médicos e começa haver demora na venda dos remédios, os clientes vão embora para outra farmácia. Mas o problema não foi resolvido e pode piorar lá na frente’’, afirma. Ele mostra como exemplo uma receita do psiquiatra Olmir de Jesus Valseecchi Filho, na qual a única parte legível é a data: 24/02/00.
O presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM) em Londrina, José Luís Camargo, reconhece que o problema existe e afirma ser dever do médico escrever suas receitas da maneira mais legível possível. ‘‘Esta recomendação deve ser seguida a critério de cada médico: com o uso do computador, da máquina de escrever ou em letra de forma. Sempre há o risco de má interpretação de uma letra ruim. O médico que não faz bem feito demonstra que não se preocupa com seu paciente’’, ressalta Camargo.
De acordo com ele, nenhum caso de agravamento de saúde de paciente por dificuldade na leitura de receita médica foi registrado nos últimos anos pelo CRM Londrina. ‘‘Às vezes recebemos reclamações, mas nada de muito grave. Dependendo da gravidade da denúncia, o profissional pode ser submetido a um processo ético que pode resultar em advertência e até em suspensão’’, afirma o presidente do CRM. Ele ressalta, no entanto, que em muitas farmácias trabalham balconistas que não sabem ler sequer as receitas bem escritas.
O presidente da Associação Médica de Londrina (AML) Pedro Garcia Lopes, critica os colegas que receitam com grafia ilegível, lembrando que o problema é grave e comum. ‘‘Uma receita mal escrita pode realmente levar à troca de medicamentos e consequências sérias para o paciente. O médico tem obrigação moral e ética de passar receitas que possam ser lidas e entendidas pelos pacientes e pelos farmacêuticos’’, ressalta.
Na opinião de Pedro Lopes, a receita escrita a caneta de maneira ilegível demonstra desleixo do médico em relação ao seu paciente. ‘‘Muitos programas de computador foram desenvolvidos para facilitar a vida dos médicos. Eles devem ser utilizados para se evitar erros e complicações aos nossos pacientes. As receitas devem ser, no mínimo, datilografadas. É nosso dever e demonstra o cuidado que temos com os pacientes.’’