Receita para ser feliz: uma família unida
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de junho de 1998
Eledovino Bassetto Junior 
A adoção legal de crianças no Brasil é um processo muito burocrático e demorado, dificultado pela falta de uma lei que caracterize o abandono e permita o encaminhamento de crianças, que muitas vezes passam anos em orfanatos, para novos lares. A opinião é do empresário Alexandre Pradera, pai adotivo de cinco crianças, que fez ontem uma palestra aberta à comunidade, dentro das atividades do Projeto Recriar: Família e Adoção, no Departamento de Psicologia da UFPR, em Curitiba. No mesmo dia aconteceu o lançamento do livro Laços de Ternura: Pesquisas e Histórias sobre Adoção, escrito pela psicóloga e professora Lídia Weber.
O encontro do Projeto Recriar, uma associação de voluntários que visa conscientizar a comunidade sobre a questão da adoção, reuniu cerca de 50 pessoas. A idéia é chamar a atenção da sociedade para as crianças em situação de abandono e estimular a adoção legal, evitando a prática da chamada adoção à brasileira, aquela em que os pais adotivos simplesmente registram a criança como seu próprio filho e que ainda representa a grande maioria dos casos de adoção, apesar de ser ilegal.
Alexandre Pradera, um bem-sucedido empresário de Curitiba, diz que embora haja um esforço da Vara da Infância e Juventude, que se dividiu em duas áreas - uma delas funcionando em caráter especial só para cuidar dos processos de adoção -, ainda falta muito para acabar com o preconceito e a discriminação contra os pais e as crianças adotadas. Para ele, na realidade não existe a figura do pai biológico. Ele explica: O processo de adoção não é um processo contínuo. É, na verdade, um ato, e a partir dele você se torna pai de verdade e o seu filho é filho de verdade.
Pai de Helemã (6 anos), Beatriz (6 anos), Letícia (5 anos), Moroni (4 anos) e Amon (1 ano e meio), Alexandre se mostra plenamente satisfeito com a decisão de ser pai adotivo e enfrentar o preconceito. Mas isso não é tudo: ele quer (e demonstra isso) conscientizar as pessoas para a necessidade de se flexibilizar as adoções. O primeiro passo, diz ele, é que o Congresso Nacional estabeleça uma legislação específica, que caracterize o abandono e, dessa forma, permita aos juízes autorizar os processo de adoção em menos tempo. Ele próprio é uma vítima da morosidade da Justiça, já que seu filho mais novo, Amon, ainda não pode ser registrado adequadamente.
Para tentar agilizar a lei que defina as situações de abandono, Alexandre e outros membros do Projeto Recriar vão fazer gestões junto aos deputados federais e senadores, apresentando uma minuta do projeto de lei. É o mínimo que podemos fazer, porque o que não pode mais acontecer é as crianças ficarem anos à espera de pais adotivos. Na realidade, queremos acabar com os orfanatos e casas para menores, porque a sociedade está se conscientizando de que todos somos responsáveis e temos que agir, diz ele, observado por seus filhos, em pleno almoço em família.
Embora as crianças ainda sejam pequenas e não compreendam o fato de serem filhos adotivos, Alexandre diz que isso não representa nenhum problema. Não vou criar os meus filhos com mentiras e por isso, quando chegar a hora, vamos conversar sobre como eles vieram ao mundo. Nós (ele e sua mulher, Lilian) já explicamos que eles vieram de outra barriga, como todas as crianças, e isso nunca vai ser um problema, relata ele.Associação de voluntários quer desburocratizar processo de adoção no Brasil e trocar orfanatos por lares de verdade
Chico CamargoExemploPradera, com a mulher e os cinco filhos adotivos: Você se torna pai de verdade e seu filho é filho de verdadeUm dos empecilhos
para a adoção é
a falta de lei que
caracterize abandono


