Dimitri do Valle
De Curitiba
Um auditor da Receita Federal começa hoje a analisar a documentação que levanta a suspeita da existência de um esquema de privilégios dentro da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. O vice-provedor da instituição, coronel de artilharia José Newton Romeiro, acusou a administração de ser conivente com o uso indevido da filantropia da Santa Casa na compra de equipamentos hospitalares explorados apenas em consultadas pagas, afastando pacientes carentes do acesso ao serviço. Ele defendeu que a instituição sofra uma intervenção para que o caso possa ser investigado.
O provedor Ari de Christian nega a existência de qualquer irregularidade e diz que as denúncias de Romeiro não passam de ‘‘um ponto de vista pessoal’’. ‘‘Todos têm acesso aos equipamentos’’, rebateu Christian na semana passada. O vice-provedor questiona o subfaturamento dos serviços médicos apresentados à Receita e defende a realização de uma auditoria para investigar como os equipamentos importados entraram no País com o benefício da isenção fiscal concedida à entidades filantrópicas, onde estão esses aparelhos e qual é a sua real utilização no momento.
Romeiro, que chegou a ser convidado para renunciar a função de vice-provedor, disse à Folha na semana passada que resolveu denunciar o caso porque estava sofrendo perseguições. Ele assumiu a função de vice-provedor em 1996 e alega ter tentado enxugar o volume de despesas geradas por médicos que usufruiam da estrutura da Santa Casa em consultas particulares, sem devolver qualquer centavo para a instituição.
‘‘Existem pessoas lá dentro que se opõem a qualquer mudança no estilo de administrar’’, afirmou Romeiro. Um documento obtido pela Folha referente a uma auditoria feita na Santa Casa em 1997 mostra que a instituição emprega mais gente do que deveria. De acordo com a Sociedade Beneficente São Camilo, que presta consultoria hospitalar, o coeficiente de 4,14 funcionários por paciente internado está acima da média que gira em torno de 2,3 a 3,0 funcionários por leito ocupado.
As denúncias também serão oficializadas num prazo máximo de três semanas na Procuradoria da República. Romeiro diz ter montado um dossiê com mais de duas mil páginas relatando as irregularidades. O objetivo do vice-provedor é provar ao Ministério Público a possibilidade de formular uma ação civil pública que leve à intervenção na Santa Casa e a saída dos integrantes da mesa provedora. Deste modo, o vice-provedor acredita ser possível trazer à tona todas as atividades particulares. Segundo ele, esta postura adotada na instituição vem desnorteando a verdadeira imagem da Santa Casa que é a prestar assistência a indigentes e a população carente.

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