Cada um tem seu destino. O de Meton Araújo de Souza era se tornar um centenário. Sentado na sala ampla da casa onde mora desde a década de 60 em Londrina, ele ajeita o chapéu na cabeça e resume: ''Passei por tanta coisa nessa vida que vocês nem imaginam. Ninguém pôde me matar, nem bicho, nem homem, nem micróbio. E mesmo agora que a morte está perto, eu ainda só penso na vida''. E é assim, saudável, sereno e ainda cheio de energia, que esse cearense pé-vermelho comemora os 100 anos, hoje, com direito à uma missa especial rezada por dom Albano Cavalin às 18h30, na Catedral.
A memória é prodigiosa. Meton lembra datas, nomes e lugares com uma clareza surpreendente. ''Cheguei em Londrina em 30 de dezembro de 1935, no primeiro trem que vinha de Ourinhos. Isso aqui era uma vila, só tinha taperas'', recorda. Foi exatamente essa imagem que acabou se tornando uma referência para o pioneiro: ''Nessa minha vida toda, tão comprida, a coisa mais incrível que eu vi foi aquele vilarejo se transformar na cidade que Londrina é hoje, com esses arranha-céus... Para mim, é um assombro, às vezes eu olho em volta e fico abismado porque eu estive aqui o tempo todo e nem vi como isso aconteceu''.
Para quem começou a trabalhar com 10 anos, e fez um pouco de tudo, os tempos da colonização só trazem boas lembranças: ''A vida era fácil; difícil eram a poeira e a lama. Muitas mulheres que vinham do Rio e São Paulo voltavam prá trás porque não toleravam a terra vermelha'', conta. Empreendedor, Meton soube aproveitar a situação e durante algum tempo fabricou e vendeu sabão. ''Até que era um bom negócio'', brinca. Depois, começou a vender jornais. ''Comecei com 10 assinaturas e terminei com 5 mil. Eu fazia propaganda até na igreja'', diz. A filha Jussara lembra que ela e os quatro irmãos foram alfabetizados com trechos de notícias.
Mas a grande paixão de Meton era outra. Cercado de trechos de mata virgem, ele começou a recuperar velhas receitas que tinha aprendido com a avó, na infância. As plantas e os remédios naturais, usados para tratar a família e amigos, se transformaram na verdadeira profissão. Ele montou um laboratório nos fundos da casa e é lá que passa o dia, trabalhando. ''Eu experimento, pesquiso, estudo. Uso plantas do Paraná, da Amazônia e do Nordeste. Elas curam qualquer coisa'', garante. Ele próprio usa as receitas que criou e garante que até hoje nunca precisou ir ao médico. Meton faz caminhadas, dorme bem, come de tudo: ''Minha esposa Leopoldina é uma artista na cozinha'', elogia. A única preocupação dele é com a família: ''O meu trabalho é que sustenta minha casa, até hoje. Quando eu faltar, não sei o que será deles''.
Católico fervoroso, Meton não tem lugar para amarguras no coração: ''Não me arrependo de nada. Nem do estudo, que não tive, porque aprendi tudo na prática. Medo, só tenho dos castigos de Deus. Acho que não me faltou fazer nada nessa vida''. De tropeiro a enfermeiro, quando não tinha emprego ele inventava trabalho: ''Em tempos difíceis eu construía barracos de palmito - era um por dia, e transportava passageiros na balsa'', aponta. A única coisa que Meton nunca fez foi se aposentar: ''Trabalhei tanto que não tive tempo de envelhecer''.
Homem de hábitos simples, Meton é o que se pode chamar de alguém verdadeiramente rico: ''Tudo que eu tinha de valor eu dei para os outros e agora, nessa idade, nada material me interessa mais. A melhor coisa que eu tenho, graças a Deus, é muita paz''.
Receita para uma vida longa, ele tem duas: ''Quer ter saúde, não fume, não beba, não coma carne vermelha e não vá ao médico'', diz, dando risada. Depois, fica sério e mostra como fez da própria vida uma dádiva: ''Prá gente ter saúde, a primeira coisa é ser apegado a Deus. Ele é que determina quando e como cada um vai morrer. Quem quiser viver muito, tem que querer fazer o bem para o próximo. É por esse motivo que Deus dá vida longa para as pessoas, para que ajudem aos outros''.

mockup