Receita de aprendizado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Antoniele Luciano<br>Reportagem Local 
O cenário lembra uma cozinha industrial, mas é, na verdade, palco de aprendizagem de alunos da Escola Novo Caminhar, mantida pela Associação de Pais e Amigos dos Portadores de Síndrome de Down (APS-Down), de Londrina. De 21 a 28 de agosto, estes estudantes comemoram Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, mostrando que podem aprender brincando em meio a diferentes ingredientes e equipamentos. A receita para um doce ou salgado é apenas o primeiro passo para o desenvolvimento de habilidades e novos gostos.
A cozinha escola da APS-Down foi construída em parceria com unidades do Rotary do município Londrina Sul e Alvorada - e da Austrália (Armidale Central), depois que a escola teve a sede destruída por um temporal, em 2011. Segundo a diretora da organização, Idalina Alzira Marques, rotarianos fizeram projetos e arrecadaram recursos para a instalação da estrutura no ano seguinte. A ideia era utilizar o espaço de acordo com a proposta pedagógica da instituição, além de capacitar os estudantes para o mercado de trabalho. "Em 2013, começamos a utilizá-la com aulas de culinária. Antes, o trabalho era no refeitório ou na própria cozinha da escola", comentou.
É neste ambiente que os alunos aprendem noções de quantidade, de acordo com os ingredientes usados no preparo dos alimentos, interpretação, escrita e leitura, a partir do texto das receitas, organização, disciplina, convívio social e informações nutricionais. E os pratos não são apenas para consumo próprio. Parte da produção é vendida para funcionários da escola e pais de alunos, garantindo retorno financeiro, que é usado na compra de ingredientes para produção de outras receitas. O cardápio traz desde saladas de frutas a bolos, pães e bolachas a quibe assado, pão de queijo e barrinhas de cereais. "Eles sabem que precisam de recurso para fazer mais receitas depois", observou Idalina.
O aluno José Bernardo Takeda, de 30 anos, é um dos que mais gostam de trabalhar com massas, como a da chipa, biscoito tradicional paraguaio. "Tenho bastante facilidade em fazer pães", relatou. O colega de turma Carlos Eduardo de Góes, de 32, por sua vez, diz que depois das aulas de culinária passou a ajudar a mãe na cozinha de casa. "Gosto de fazer bolo de cenoura, de milho. Falam que fica bom", pontuou.
O atendimento na cozinha escola é feito duas vezes por semana e abrange até dez alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) por vez. A professora que cuida da turma, Fátima Hitoni, assinala que os estudantes demonstram diferentes aptidões dentro das atividades. "Alguns gostam mais de organizar a cozinha, outros de colocar a mão na massa ou limpar os utensílios. Os pais também nos dão retorno do que eles aprenderam fazer", observou.
A presidente do Rotary Clube Alvorada, Lázara Pereira Campos Caramori, analisa que o retorno do investimento do clube de serviço está dentro do esperado. Ela recorda que o projeto foi desenvolvido com o intuito de oferecer uma estrutura que pudesse beneficiar a APS-Down, do ponto de vista econômico e educacional, ao longo dos anos.
A idealização, na época, partiu da intercambista Luciana Belomo Tamaguchi, que fez a ponte junto ao Rotary australiano. Os clubes de serviço doaram 12 mil dólares - arrecadados em um almoço solidário na Chácara Graciosa e auxiliaram na compra de materiais para a cozinha e outras áreas da associação. "Estamos satisfeitos porque o projeto está caminhando bem. A culinária também é aprendizado, educação, os ajuda a ter autonomia. Conseguimos unir o útil ao agradável", avaliou.
HISTÓRICO
A APS-Down tem 21 anos de atividades em Londrina. A associação nasceu de um projeto de extensão universitária desenvolvido no departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1989. A entidade foi criada então por pais das crianças atendidas, em novembro de 1993. No início, a APS-Down mantinha o Centro de Educação Especial Crescer, que passou a ser Escola Novo Caminhar em 2013. A escola oferece educação infantil, ensino fundamental e EJA na modalidade especial a 153 alunos de Londrina e região


